Então, digamos que você tenha aquiescido ao meu apelo e esteja aqui agora, tendo na família um jogo para chamar de seu. O jogo da família X (coloque aqui o nome da sua família)! Este jogo passará a ser conhecido da família e precisará passar pela prova do tempo, pelas festas de fim de ano, pelos aniversários dos primos e ter seu espaço no Dia das Crianças. Porém, as crianças são sedentas de novidades, espetáculos e promessas de diversão. Basta ver como Pinóquio tem facilidade em abandonar qualquer compromisso por uma diversãozinha, no conto de Carlo Collodi.

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Se você já leu Pinóquio, deve se lembrar da cena em que nosso protagonista de madeira chega ao teatro de marionetes e é recebido pelas marionetes que o reconhecem como alguém semelhante a elas e interrompem a apresentação para saudá-lo. O reconhecimento transforma uma situação individual em uma manifestação coletiva de alegria. Aqui, podemos pensar no compartilhamento de experiências como forma de aproximação. A identidade comum cria um vínculo entre personagens que, até então, estavam separados. E é assim com a criança que brinca. Elas reconhecem a si mesmas como semelhantes: seres brincantes, pois, para elas, quase toda atividade é jogo e é pelo jogo que elas adivinham e antecipam as condutas superiores. “A infância serve para brincar e para imitar”, diria Claparède.
Então, depois de lançado na sua família o “jogo base” de vocês, totalmente artesanal, remodulado a partir de um jogo que ninguém gostava, mas que agora amam, com as suas próprias regras (principalmente formuladas pela sua criança); depois de ter passado pelos playtests com os tios e pelas reimpressões devido às cartas amassadas pelos colegas da escola (não por querer, mas por excitação), chegou a hora das tão aguardadas novas edições do jogo, que darão espaço para os priminhos fazerem as regras, alterações e inserções de novos modos de jogo: Camila Edition, Regras do Pedro 2.0, Versão Duda com Minis Pintadas etc.
Sim! Depois de criar o jogo, a criança pode descobrir que ele não precisa permanecer pronto e acabado, apesar de ter que estar sólido e jogável. Ele pode continuar crescendo por meio das ideias de outras crianças próximas, os primos, por exemplo. Quando uma criança cria um jogo, é natural que tenha suas próprias preferências sobre como ele deve funcionar. Mas, ao convidar outras crianças para inventar regras, ela descobre que uma ideia inicial pode ser modificada, ampliada e até melhorada. E o que isso pode ensinar?
Que o jogo oferece um ambiente concreto e motivador para aprender que os conflitos podem ser resolvidos pela conversa, pela experimentação e pela construção de acordos; que modificar as regras de um jogo é uma maneira acessível de descobrir que aquilo que foi criado por pessoas também pode ser repensado por pessoas. Até mesmo Pinóquio, tão atraído pelas promessas alheias, nos permite pensar sobre a importância de fazer escolhas, em vez de simplesmente seguir o caminho que parece mais divertido. No jogo, essa reflexão pode começar com uma pergunta simples: será que a regra proposta pelo colega torna a partida mais interessante? É preciso experimentar para descobrir. E essa postura pode ultrapassar o tabuleiro e estimular uma atitude mais criativa diante dos problemas cotidianos.
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A criação coletiva oferece uma experiência prática de participação, na qual as crianças podem aprender a ouvir minorias, justificar escolhas e construir acordos sem depender sempre de uma autoridade que determine o resultado. Você, adulto da equipe de desenvolvimento do jogo, pode ajudar a garantir que as crianças, quando convidadas a participarem do processo de desenvolver os modos/versões de jogo, tenham espaço para participar, especialmente quando algumas crianças são mais falantes ou dominantes que outras.
Por fim, o valor de tudo isso não está somente no resultado do jogo, mas também nas conversas, nas experiências e nas descobertas que acontecem durante sua transformação. Assim como Pinóquio percorre um caminho de erros, escolhas e mudanças até se tornar diferente daquele boneco que conhecemos no início da história, o jogo também pode carregar as marcas de tudo o que viveu com as pessoas que o jogaram. Cada nova edição, regra ou variante registra um pouco dessa trajetória coletiva. E talvez esteja aí uma das maiores riquezas de criar um jogo em família: perceber que algo pode nascer das ideias de uma criança, ganhar novos sentidos nas mãos de outras e continuar se transformando sem perder aquilo que o torna especial.
