Nós sabemos que existe um elemento lúdico na criação intelectual. Einstein o sabia tanto que amava a experimentação criativa dos jogos e a observação das brincadeiras infantis. Hoje, com tantos desdobramentos das teorias da educação e das infâncias, é desnecessário assinalar o papel do jogo no desenvolvimento da criança e mesmo do adulto. Mas por que é tão interessante para a criança não só imaginar, mas criar e construir em suas brincadeiras e jogos?

Na minha infância, tão interessante era construir o brinquedo que se iria brincar! Na verdade, mais tempo se passava criando do que atuando, jogando com ele. Os carrinhos de rolimã, as pipas, cataventos, os origamis, as pistas de corrida com carrinhos de tampinha, os estilingues de cano e borrachinha de dinheiro e outros tantos engenhos. Lembro que era necessária pesquisa, tentativa e erro, cálculos (mesmo que imprecisos), para que a coisa toda se aparatasse e estivesse a serviço das regras que criássemos. É isso, os bons jogos nos desafiavam: precisávamos construir seus componentes e suas regras para então os testarmos e balancearmos; os jogos não vinham prontos em embalagens de plástico, principalmente aqueles que nos permitiam estar ao ar livre.
Havia ainda o pulsar da criatividade no desejo pela reformulação daqueles jogos cujas regras já sabíamos, porque todos já as sabiam e as usavam à exaustão, desde as menores turmas da escola. Por que não transformar aqueles jogos? Por que não fazer diferente? A criança encontra no jogo e na brincadeira um espaço privilegiado para experimentar possibilidades, elaborar hipóteses, solucionar problemas e atribuir novos significados às situações e aos objetos. Isso me lembra muito Manoel de Barros, que talvez seja um dos melhores autores para pensar a relação entre brincadeira e poesia. A poesia dele frequentemente procura recuperar justamente essa capacidade infantil de desautomatizar o mundo, de olhar para uma coisa conhecida e perguntar o que mais ela poderia ser.

Mas de onde vêm as regras dos jogos que conhecemos desde sempre, como amarelinha ou pula-sela? Por que eu sabia, com dez anos de idade, que não poderia simplesmente fazer desaparecer os contornos do que o jogo precisava nos impor para que continuasse desafiador e divertido? Bom, você já revisitou bem as suas longínquas memórias de infância ou simplesmente observou sua filha ou seu sobrinho brincando? A criança cria jogos de regras arbitrárias para si mesma (jogos-solo, digamos assim). São atividades nas quais a própria criança estabelece uma regra para tornar determinada ação mais difícil ou mais interessante. Por exemplo, andar apenas sobre a borda da calçada, andar em um pé só, realizar uma determinada ação seguindo uma condição que a própria criança inventou etc. A regra, nesse momento, não veio de manuais nem da tradição. Foi criada pelo próprio jogador. A gente cria deliberadamente um obstáculo para poder vencê-lo. Então, existe primeiro uma espécie de necessidade infantil de ordem e autolimitação. A sociedade posteriormente pode transformar essas pequenas regras individuais em regras coletivas, estáveis e tradicionais. Assim, de forma coletiva, surgem regras para os jogos tradicionais como amarelinha ou pula-sela. Mas há algo curioso nisso: se a criança é criadora, por que aceita regras que já estavam lá antes dela? Porque aceitar uma regra também pode ser uma forma de brincar com a criação. A regra não é apenas uma limitação; é também aquilo que torna possível o jogo. É justamente o limite que permite que alguma coisa aconteça dentro dele. A criança primeiro aprende a regra, depois domina a regra e, então, começa a experimentar com ela. “E se fosse assim?” É nesse momento que a criatividade aparece novamente. A criança não precisa destruir a regra para ser criativa; precisa descobrir que a regra pode ser outra.
Quando criei minha própria amarelinha aos onze anos de idade, com minhas próprias regras, convidando as outras crianças da praça, eu queria descobrir até onde aquelas regras poderiam desafiar quem brincasse comigo. E elas queriam ser desafiadas. Talvez porque vencer uma dificuldade seja também uma maneira de afirmar o próprio eu. O amor à regra é uma tendência profunda da alma infantil, diria Jean Château, psicólogo francês. Para ele, a regra é o instrumento da personalidade.

Então, o meu apelo de hoje é simples: pegue aquele jogo que você tem parado aí, aquele que considera ruim, aquele que nem vale a pena vender. Passe uma tarde com uma criança que você goste muito e transforme-o. Dêem uma cara nova para ele, criem novas regras, inventem uma nova arte, adicionem componentes, mexam aqui, mexam ali, testem, retestem. Deixe que a criatividade de vocês seja o viés da pesquisa, envolva outros playtesters no processo (a tia, o primo, o avô), faça dele um instrumento para criatividade. Não tenha pressa de chegar ao jogo pronto e esse pode ser, um dia, o jogo personalizado e único da família de vocês!

Seja bem-vindo tambem, Ian!
Gostei muito dessa pauta. Realmente o mundo moderno nos entulha de “conteúdo” e cada vez temos que imaginar menos.
Antigamente para soltar uma pipa, você tinha que fazer a pipa, fazer a rabiola, o cerol… as crianças criavam habilidades. Hoje é tudo pronto.
Boa ideia essa de pegar os jogos parados e tentar repensá-los. Vou experimentar!
Sds,
Eduardo