Praticamente nada do que se lança hoje em dia é um produto independente.
Filmes, séries, jogos, tudo tem sequência, nova temporada, expansão. As empresas descobriram que é mais fácil fazer as pessoas gastarem ou prestarem atenção com coisas que elas já conhecem ou estão envolvidas. Então tudo se alonga hoje em dia.
Por isso, resolvi entrar na dança. Estou lançando mais uma série de artigos aqui, porque ela junta duas coisas que estão entre as que eu mais gosto na vida: livros e jogos.
Ano passado, numa tentativa de me atualizar com literatura de fantasia e ficção modernas e também como uma forma de gerar conteúdo novo para o Covil, eu sugeri ao Paulo criarmos um Grupo Literário. A ideia é juntar covileiros interessados em literatura em geral e realizar leituras coletivas de livros de fantasia e ficção científica.
Começamos com a Série Mistborn, de Brandon Sanderson, que levou uns seis meses para ser lida ao todo. Para esse ano, nos propormos a ler a série Red Rising. Eu gostei tanto que achei que valia a pena trazer isso para o público mais geral, não só como forma de incentivar a leitura, mas também de divulgar o grupo. Se você é apoiador do Covil e quiser participar, basta procurar o grupo na comunidade do Whatsapp.
Vou ser muito sincero, ainda não encontramos a melhor forma de funcionar. Durante o Mistborn tentei sugerir datas e um ritmo de leitura para ir soltando conteúdo intermediário sobre o livro, mas não funcionou. Cada um tem o seu ritmo e acaba que fica difícil falar do livro durante a leitura sem gerar spoilers. Agora com o Red Rising estou pensando em fazer conteúdo apenas com os volumes lidos inteiramente e o grupo se tornou mais um lugar para trocarmos ideias sobre os livros.
De qualquer forma, aqui vamos fazer um resumo duplo: primeiro falarei do contexto geral do mundo onde a série se passa e o que eu acho disso. Sobre o livro, darei mais impressões sobre a narrativa e a forma, porque se eu entrar em detalhes provavelmente estragarei a experiência de alguém. E, por fim, falarei do jogo e quanto eu acho que ele reflete ou não o tema.

Império Romano Solar
Nessa seção eu vou descrever de modo bem sucinto o mundo e a sociedade de Red Rising, pelo menos até o ponto que eu consegui ver. Para isso, além de ler os livros (me encontro no meio do segundo livro da saga), eu usei o portal Red Rising Wiki, que agrega todas as informações da série.
Pelo que vi, o passado não é totalmente explicado, há certas inconsistências, mas basicamente é o seguinte:
Mais ou menos setecentos anos antes dos acontecimentos do primeiro livro, os humanos conseguiram desenvolver a tecnologia para realizar viagens espaciais regulares, a partir do uso do Hélium-3 como combustível, e com isso começa a explorar os demais planetas do Sistema Solar, primeiro para a obtenção de recursos e posteriormente para colonização.
Como a maior dificuldade para as viagens espaciais era exatamente vencer a gravidade da Terra, investiu-se em criar um porto espacial na Lua. Para operar esse porto lunar, formou-se uma sociedade rígida, baseada em classes, onde cada pessoa foi geneticamente modificada para atender a funções específicas.
Com o sucesso das operações espaciais, a Lua começou a se tornar um estratégico entreposto e aos poucos se tornou uma cidade-estado (denominada Luna), gerida por uma aristocracia dominada pela elite (os Ouros, ou Dourados) daquela sociedade hierarquizada que colonizou o nosso satélite.
Luna se tornou tão importante e rica que em determinado momento se rebelou contra a Terra e terminou por dominá-la. Ao fazê-lo, impôs sua cultura de classes para toda a humanidade. Nesse ponto, as diferenças entre as pessoas das diversas classes era brutal e a exploração de todos pelos Dourados era a norma vigente. Os Ouros governam com mão de ferro e praticamente retêm para si todos os benefícios do progresso.
Não que a elite aja totalmente unida, existe uma gigantesca rivalidade entre as diversas famílias douradas na disputa por cargos e pela melhor distribuição do poder e dos recursos. Eu chamei de “Império Romano Solar” porque os Ouros realmente se veem como herdeiros dos Romanos e agem como as antigas famílias patrícias de Roma. Assim como os romanos na fase do fim da República, eles usam uma retórica de moralidade e meritocracia mas na prática são absolutamente amorais e corruptos.
Quando o livro começa, essa sociedade já está distribuída por todo o sistema solar, tendo cidades terraformadas em todos os planetas ou luas que possuam estado sólido. Marte é particularmente importante por ser a principal fonte de Hélio-3, o combustível espacial. Minerá-lo (pois ele é encontrado em estado sólido) é uma atividade altamente perigosa e ela é realizada inteiramente pelos Vermelhos. Estes são explorados pela sociedade, que os engana, mantendo-os vivendo no subterrâneo acreditando que estão em um esforço para salvar a humanidade através da mineração.
Darrow é um jovem de 17 anos, o minerador principal de seu clã, e quando inicia a história, sua única preocupação é conseguir que sua equipe bata a maior quota do mês e que ele possa aproveitar o tempo com sua amada esposa, Eo.
Nesse ínterim, a tragédia o ataca. Ele e sua esposa são pegos cometendo uma pequena infração (invadir um jardim que era privado a pessoas de outras cores) e, enquanto ambos são punidos, Eo resolve cantar a canção proibida, música que marca a revolta dos Vermelhos pela forma como são explorados.
Eo é morta e Darrow escapa por pouco, salvo pelo seu Tio para ser recrutado por um grupo rebelde (os Filhos de Ares), que lhe dão a seguinte missão: se infiltrar entre os Ouros para entrar em sua Academia Militar (denominada, “O Instituto”) e ser aprovado com honras visando se alguém importante e com poder suficiente para ajudar o movimento.

O Livro:
Não vou entrar nos detalhes do que acontece com Darrow depois de que ele entra para os Filhos de Ares e se infiltra no Instituto. Você vai ter que ler para descobrir isso. Vou me concentrar mais nas minhas impressões sobre como a história é contada.
A narrativa é em primeira pessoa (o próprio Darrow que nos conta a história), o que para mim é talvez o maior problema do livro.
Quando temos um narrador em primeira pessoa, esperamos que ele nos conte o que está pensando. Darrow faz isso de maneira parcial. Ele conta apenas o suficiente para acharmos que ele está indo para um determinado caminho quando descobrimos no final que ele na verdade já tinha contado com o movimentos dos adversários e estava preparado para as contingências.
Após uma duas situações dessas, você como leitor começa a antecipar as “traições” de Darrow. Não que o livro não te surpreenda, a história é brilhante e de tirar o fôlego, mas eu me sinto um pouco enganado. Talvez eu preferisse um narrador em terceira pessoa ou até que a história fosse contada por alguém próximo a Darrow e não por ele mesmo. Porem, nós perderíamos as suas dúvidas internas, que é o que o humaniza.
Quando a narrativa chega ao Instituto a história se torna uma espécie de reality show de sobrevivência em um mundo praticamente sem regras. Os “estudantes” são divididos em 12 casas (organizados de acordo com sua personalidade e nomeados de acordo com os nomes dos Deuses Romanos). O objetivo deles, em tese, é fazer com que sua casa vença todas as demais. Porém, cada um deles está sendo avaliado individualmente para receber ofertas de emprego no futuro. No caso da casa de Marte, que é a que acompanhamos mais de perto, o ambiente é hostil, onde vários alunos querem a liderança para si e todas as alianças são, de fato, temporárias. Existem inspetores espalhados pelas casas, mas eles funcionam de forma mais errática do que o VAR no futebol brasileiro, claramente beneficiando algumas casas em detrimento de outras em alguns momentos.
Na prática, o tal “jogo” é um curso de Liderança na marra. O verdadeiro Líder precisa mostrar aos colegas que eles devem ajudá-lo porque essa é a melhor forma de, antes de mais nada, sobreviverem e em se possível, vencerem. Darrow tem muito o que aprender. Desde o início é estabelecido que ele tem enorme capacidade de raciocínio estratégico, mas lhe falta inteligência emocional para liderar, certa flexibilidade para lidar com problemas e firmeza de propósito para aguentar o tranco dos revezes. A verdadeira história do livro está em como ele vai obter isso.
Eu li o primeiro volume em inglês (pelo simples motivo de que a versão original estava mais barata na Amazon). Achei o vocabulário bastante rico, tive alguma dificuldade em certos trechos. Aproveitei uma promoção na Amazon e peguei o segundo e o terceiro volumes em Português pela metade do preço. Estou achando a tradução boa. Como tem muito neologismo e termos específicos daquele mundo, o tradutor precisa decidir o que traduzir e o que manter. De maneira geral eu gosto das decisões nesse sentido.
Eu confesso que o início do livro não me agradou muito mas, uma vez que Darrow “toma a pílula vermelha”, e literalmente vemos o mundo que existe fora da sua caverna, a narrativa é avassaladora. Altamente recomendado.

O jogo – Resumo das Regras
Lançado em 2022 pela Stonemaier Games e aqui no Brasil pela Grok, Red Rising é um jogo de cartas baseado no mundo dessa série de Livros, de autoria de Jamey “Jaiminho” Stegmaier e Alexander Schmidt.
Os Jogadores são os líderes de cada uma das casas do Instituto e estão em busca de recrutar o melhor time para suas casas. Além disso, buscam garantir maior influência no Instituto, ter um bom estoque de Hélio-3 e melhor frota de naves possível a sua disposição.
A jogabilidade lembra muito a de jogos como o Fantasy Realms. Você tem uma mão de cartas e quer manipulá-la de modo que elas tenham a melhor sinergia possível entre si.
As cartas representam os personagens da série, caracterizados por suas cores e gerando pontuações de formas diferentes, normalmente pedindo combinações de carta diferentes.

No seu turno, cada jogador tem duas opções:
1) Baixar uma carta em uma das localidades disponíveis (que representam o Júpiter, Marte, Luna e o Instituto) e pega-se uma carta de uma outra localidade, ganhando-se um bônus relativo a este local (melhorar frota em Júpiter, ganhar um hélio-3, pegar o marcador de Soberania em Luna e, aumentar sua influência no instituto caso pegue uma carta dali). Se nenhuma das cartas visíveis interessar, É possível pegar uma carta fechada do deck. Nesse caso, você joga um dado que dará um dos bônus possíveis.
2) Pegar uma carta do Baralho e colocá-la em um dos locais disponíveis, ganhando o bônus daquele local. Essa ação só faz sentido quando você acha que o seu baralho já está bom e não quer mais trocar cartas.
Algumas cartas permitem uma ação extra quando baixadas. Além disso, a carta baixada oculta as cartas anteriores (normalmente apenas as cartas totalmente visíveis podem ser pegas).
O jogo segue até que ocorram as 3 condições de fim de jogo descritas a seguir ou que um único jogador tenha alcançado sozinho duas delas:
a) Um jogador ter sete ou mais marcadores de Helio-3
b) Um jogador de mais de sete cubos no Instituto.
c) Um jogador chegar ao nível 7 da trilha de frota.
Quando isso ocorrer, completa-se a rodada para que todos tenham a mesma quantidade de turnos e se encerra o jogo.
A pontuação é feita principalmente pelas cartas da mão. Cada uma delas é avaliada individualmente gerando pontos de forma independente. Se houverem mais de sete cartas na mão, há uma penalidade de 10 pontos por carta. A frota pontua pela posição na trilha, cada marcador de Hélio-3 vale 3 pontos, o marcador de Soberania vale 10 e a influência no instituto é contada da seguinte forma: quem tiver mais cubos ganha 4 pontos por cubo, o segundo lugar ganha 2 pontos por cubo e os demais 1 ponto por cubo.
Quem tiver mais pontos é o vencedor.

O jogo – Review
Embora o jogo seja muito bem produzido (o padrão Stonemaier não falha), o jogo é bem abstrato. Os termos e os personagens estão ali, mas o que você faz tem bem pouco a ver com o que acontece no livro. Só as cores altas (Ouros, Pratas e Bronzes) podem participar do Instituto, então não faz sentido as casas recrutarem gente de outras cores.
Em termos de jogabilidade, é um desafio interessante, porque as cartas interagem entre si de maneiras positivas e negativas. Você precisa decidir o que vai tentar buscar e do que vai se livrar. Não dá para acumular cartas demais, porque há uma penalidade de dez pontos a partir da oitava cartas mas, dependendo das combinações, pode fazer sentido manter mais cartas. Até que há uma boa interação entre os jogadores, pois as ações das cartas mexem muito com os adversários (positiva e negativamente) e com a situação da mesa.
Um dos problemas do jogo é que se você não conhece bem as cartas, você tem pouca noção se está bem ou mal no jogo. Além disso, muitas vezes as pessoas ficam preferindo ficar girando as mesmas cartas do que abrir cartas novas e o jogo as vezes fica meio lento.
Eu acho o jogo legal sem ser brilhante. Pessoalmente, eu não gosto muito de jogos que vem com muito texto nas cartas e que me obrigam a ficar checando diversas vezes as condições de pontuação de cada uma delas. Isso não é um defeito em si, muita gente gosta disso, mas eu prefiro coisas que eu consiga ver de longe e memorizar mais rápido.
Como já falei anteriormente, a produção é maravilhosa, mas isso tem um custo e ele se refletiu no preço do jogo quando foi lançado (hoje, como ele não fez tanto sucesso assim, ele pode ser encontrado por aproximadamente 200 reais na Ludopedia).

O principal problema para mim é que ele acaba não sendo um grande serviço aos fãs da série. Eu joguei muito antes de cogitar ler o livro e confesso a vocês que, se dependesse unicamente do jogo, nunca teria pego o livro para ler.
Se você não conhece nada da série e quer um jogo parecido e mais barato, com certeza o Fantasy Realms vai lhe atender melhor. Se você gosta da série, as cartas vão dar uma imagem aos personagens que você leu e talvez você ache interessante ver como eles se relacionam no jogo, mas nada além disso.
Sinceramente, eu acho pouco. Jaiminho perdeu uma grande oportunidade, pois essa série de livros poderia render um jogo de escopo bem maior do que ele entregou. Como diz Lulu Santos “não vou dizer que foi ruim, tambem não foi tão bom assim”. Acontece.
Nota 6.
Conclusão
Eu já falei disso em um artigo recente, mas vou repetir: eu não gosto de fazer reviews negativos.
Não é porque eu tenha medo das editoras não me mandarem jogos. Elas não mandam mesmo, não corro esse risco. Eu não gosto porque acho perda de tempo resenhar um jogo que eu acho que não valha a pena ser jogado. Eu escrevo sobre jogos que gosto para motivar vocês a conhecê-los (e também que sirvam de mote para outros assuntos, eu uso os board games para falar do mundo, caso alguém ainda não tenha percebido).
Nem acho o Red Rising um jogo ruim, dei nota 6, é um jogo OK, mas não escreveria um review de Red Rising se fosse só pelo jogo pois ele está abaixo dos jogos que eu normalmente resenho. Ele entrou aqui pelo tema, o livro me surpreendeu muito positivamente e eu queria escrever sobre isso. De certa forma, esse review foi o pedágio que eu pago para poder recomendar os livros a vocês.
Eu não sei quais foram as condições em que o Jamey Stagmeier trabalhou nesse jogo, mas claramente ele buscou uma solução rápida, talvez para atender algum prazo do lançamento de algum livro da série e com isso aproveitar o hype (eu não pesquisei sobre isso, se alguém tiver uma informação mais apurada, pode trazer nos comentários e eu dou crédito). Organizar personagens de uma sociedade altamente hierarquizada em naipes é algo muito óbvio. Ele fez um jogo competente e bem produzido, e só. Para a empresa dele e para o tema que ele deve ter pago caro para representar, acho que ficou pouco.
Um jogo melhor teria eu feito eu ler essa série antes. Perdi tempo, os livros são muito bons. Não é alta literatura, mas tem boas sacadas de relações humanas, estratégia e, por fim, dá um bom exemplo do que pode acontecer a uma sociedade que se torna totalmente secular e amoral. Quem leu “Sapiens”, de Yuval Noah Harari, vai perceber ecos dos argumentos desse livro nesse romance.
Para concluir, convido a todos a lerem mais. Eu fiquei muito tempo sem ler ficção e reencontrei esse prazer no último ano. Trocar ideias e referencias sobre livros e jogos é uma das melhores coisas que existem na vida. Fica melhor ainda se encontrarmos mais pessoas que compartilhem do nosso gosto!
Doação do Mês
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E o felizardo do mês de fevereiro foi o Rogério Fogari, de Santa Fé do Sul, São Paulo. O Zapotec já se encontra a caminho.
Para o mês de março resolvi ser mais ousado e vou doar um jogo que é recente e de que eu gosto muito, tanto que já escrevi sobre ele aqui: Darwin’s Journey. Acho que dispensa apresentações, mas o link para o meu texto está aqui.
Por que estou fazendo isso? Porque eu cheguei a conclusão que eu realmente gosto mais dele no BGA do que ao vivo, dado a necessidade de testar e analisar toda a cadeia de ações encadeadas para ter um bom resultado.
Um outro motivo é que recentemente eu fiz uma partida que eu me senti “zerando” o jogo. Eu completei todos os objetivos, fiz todos os acampamentos, mandei todos os selos, botei meu navio no ultimo posto e meu terceiro boneco também no fim da trilha. Simplesmente deu tudo certo nesse jogo e eu sei que nunca mais vou fazer um partida tão perfeita.
Sendo assim, acho que posso liberá-lo para ser mais jogado em outras mesas.
Vocês já tiveram essa sensação de “zerar” um jogo de tabuleiro competitivo? Se você quiser concorrer a esse jogo, escreva um comentário sobre isso (ou sobre qualquer outro assunto relevante) aqui na seção de comentários. No final de março eu realizarei o sorteio.
Aviso logo: vou viajar para o exterior e na sequência para a Covil Con em Abril. Então, posso demorar um pouco para enviar o jogo. Se a pessoa for a Covil Con eu entrego por lá (até prefiro).


Amo fantasy realms e gostei bastante do Red Rising.
Se curte fantasy realms e quer aumentar um pouquinho a complixidade, o Red Rising provavelmente vai agradar.
Além do ponto nas cartas, tem 3 trilhas de pontuação diferente e assimetria no poder dos jogadores.
Gostei da interação entre as cores/castas e personagens (ela remete a acontecimentos do livro). A arte é linda e produção SM mto boa como sempre.
Apesar de discordar de alguns pontos, gostei bastante da analise, mto bem escrito. Parabéns
Obrigado pelo feedback, Richard!
Discordar faz parte! Fique a vontade!
Sim, algumas combinações de cartas tem muito a ver com a série. Outras, nem tanto.
Um abraço!
Eduardo
Olá, Eduardo! Tudo bem?
Não sei se “zerar” é a palavra certa no caso, mas quando fiz 29 pontos no Viticulture tive essa sensação. Lembrando que 20 pontos ativa o final do jogo, então fiz quase 50% a mais do que o jogo pede (essa conta está certa?)
Me bateram 2 sensações: a primeira de dever cumprido, de que realmente eu aproveitei o melhor que minhas cartas podiam oferecer e maximizei a estratégia com elas; a segunda sensação foi de melancolia pós-jogo, como se não houvesse mais novidade e que a jornada terminou (assim como a do Darwin).
Felizmente fui atrás de algumas expansões PnP, que reascenderam a chama do desafio e hoje o Viticulture está vendo mesa com bastante frequência por aqui. Passei também a jogar os modos solos e criamos regras caseiras…agora o céu é o limite!
Enfim, só queria compartilhar e quem sabe concorrer a essa lindeza que é o Darwin’s Journey 😮
Grande abraço!
É engraçado que em jogos como o Brass eu não sinto isso. Já tive vitórias muito satisfatórias, mas talvez seja porque eu nunca tive um jogo onde eu, por exemplo, tenha colocado todas as tecelagens de ultimo nível ou vencido com aquela maldita olaria de nível 5.
Acho que em jogos onde o foco está mais no tabuleiro central do que no individual isso tem menos chance de acontecer.
Um abraço,
Eduardo
Fala Eduardo!
Seu texto veio em bom momento, esses dias um amigo perguntou se alguém do grupo já havia jogado Red Rising, que ele tinha interesse em saber…pois bem, ninguém havia jogado, mas agora ele tem um belo texto pra saber como é o jogo! haha
Houve um tempo em que me interessei pelo jogo também, talvez próximo do seu lançamento, principalmente pela sua beleza, mas também porque estava numa vibe de jogos estruturados ao redor de cartas (Tal como os excelentes Innovation e Race fot the Galaxy). Não cheguei a matar a curiosidade e ela foi se dissipando, seja pelo surgimento de outros jogos na mira ou por ver que Red Rising “nem era isso tudo”. Demorou um tempo, inclusive, para que eu descobrisse que o jogo era baseado em uma série de livros, dos quais eu nunca tinha ouvido falar (e até hoje pouco sabia). Depois de ler seu texto, o livro passou a me interessar mais que o jogo pois, assim como para você, jogos que necessitam leitura constante de várias cartas não tem despertado muito meu interesse. A impressão que tenho é que ou eu estou jogando, no meu turno, ou estou lendo e relendo minha mão para entender o que farei quando ele chegar, e ai simplesmente não consigo ver o que está acontecendo na mesa, e isso me incomoda. É esse também um dos motivos que uso muito pouco o BGA, ver o que os outros estão fazendo, as ações tomadas, faz parte da experiência e do meu prazer de jogar, e quando isso não é possível, o jogo fica menos interessante pra mim.
Pelo visto vou permanecer aqui com meu (muito mais portátil) Fantasy Realms e deixarei essa curiosidade pelo jogo Red Rising morrer em paz mesmo.
(Em tempo, não tive como deixar de lembrar de outro duo jogo/livro, o Universo Duna. Esse foi o contrário comigo, joguei o jogo (o Imperium) antes do livro e do filme…e ele acabou me levando ao livro! haha
E ainda não tive a sensação de zerar um jogo, então essa fica pro futuro!)
Adorei esse novo tipo de texto, fazendo o paralelo do jogo com o livro, acredito q teremos excelentes “estudos’ por aí pra serem feitos!
Sobre o jogo em si, eu o tenho (peguei numa math-trade, não era necessariamente um jogo que estava no radar) mas ainda não joguei, quero testá-lo pra ver se vale a pena mantê-lo na coleção ou não. Com seu texto me deu vontade de colocá-lo na mesa mais breve.
Ainda, em relação a “zerar um jogo”, ainda não tive essa sensação. Já teve jogos que achei que tinha esgotado, mas foi só trocar de grupo pra ver outras estratégias e perceber que dificilmente isso vai acontecer (a não ser como aconteceu com vc, que fica realmente difícil não ter essa sensação. Eu joguei o Darwin’s somente no BGA, então ainda estou na parte do “estou boiando com tantas opções a fazer”. hehe
Mais um excelente artigo!!
Um abraço
isso que você falou (trocar de grupo e com isso perceber que tinha parado em metagame local) é muito comum de acontecer.
No caso do Darwin’s Journey, eu tive esse sentimento simplesmente porque eu limpei o tabuleiro. Peguei todos os objetivos, todos os acampamentos e todos os selos. Poderia ter feito as três cartas dos trabalhadores, não o fiz porque ganhava mais ponto de outra forma. Sim, a pontuação foi o meu record (251), que foi bem alta, mas já ouvi falar de pontuações maiores.
Eu não disse que nunca mais vou jogar o DJ, jogo ele de boa, e provavelmente não vou repetir essa façanha teu cedo (acredito que meus adversários me deixaram muito livre). Só que eu realmente acho ele melhor de jogar no BGA assíncrono, pois ao vivo dá muito downtime. Então, achei por bem passá-lo adiante.
Sds,
Eduardo
Boa noite, Eduardo.
Cara, você sem querer me fez voltar aos anos 90/2000.
Naquela época, a gente tinha que esperar semanas e até meses pra ir até uma banca de revista e comprar os famosos “detonados” pra conseguir zerar determinado jogo. Voltávamos pra casa com o detonado embaixo do braço obstinados a segui-lo passo a passo, como se o futuro da humanidade dependesse disso. Época boa demais!
Existe um fenômeno psicológico chamado Zeigarnik Effect, que descreve simplesmente que tarefas incompletas ficam mais presas na nossa mente do que tarefas completas. Nos jogos isso aparece como missões secundárias incompletas, colecionáveis faltando, mapa parcialmente explorado…e enquanto algo estiver 99% completo, o cérebro continua puxando atenção para isso.
Quem nunca ficou com raiva por completar 99% de Donkey Kong Country?
Jogos liberam pequenas recompensas psicológicas. Seja uma barra de progresso dizendo que você pegou 42/50 itens ou um combo no Wingspan (assunto que já foi tema de outro texto seu).
É dopamina pura, criando um ciclo que nos deixa mergulhados como se estivéssemos assistindo um episódio após o outro de uma série de sucesso ou lendo uma página após a outra quando percebemos que faltam 2 capítulos pra acabar um livro.
Isso transforma o jogo em mais que uma história: vira um desafio pessoal.
Forte abraço!
Falando em Detonado, eu fiz aqui no Blog um detonado dos cenários do Cascadia. Foi o texto que mais me deu trabalho na vida e um dos que teve menos repercussão, infelizmente (talvez por isso não tenhamos outros detonados por aí).
Sobre o que você falou, da endorfina recebida por completar tarefas, é isso mesmo. Uma das vantagens dos euros desse tipo é que você pode ter uma partida satisfatória mesmo que não a vença, contanto que consiga fazer as coisas que se propôs a realizar.
Sds,
Eduardo
Olá, Eduardo. Parabéns pelo texto, especialmente pela forma como você propõe essa ligação entre dois universos que também fazem parte da minha vida: os livros e os jogos de tabuleiro.
Recentemente terminei o último livro da série completa de “A Fundação”, não apenas a trilogia clássica, mas também os romances posteriores que expandem o universo da saga. Fiquei novamente impressionado com a capacidade da ficção científica de misturar imaginação com reflexão sobre história, política e o destino das civilizações.
Por isso achei interessante sua abordagem de “Red Rising”: conhecer tanto o livro quanto o jogo. Esse tipo de proposta mostra como uma mesma obra pode ser vivida de maneiras diferentes: no livro, acompanhamos a história e seus personagens; no jogo, passamos a interagir com aquele universo por meio de decisões e estratégias. É uma forma muito interessante de ampliar a experiência de um mundo ficcional.
Já “Darwin’s Journey” ainda não conheço, mas o tema da evolução sempre me fascinou. A jornada científica de Charles Darwin mudou profundamente nossa forma de entender a vida. Aqui, porém, já não estamos mais no campo da ficção científica, mas diante de uma das histórias reais mais transformadoras da ciência.
Abraços,
Bernardo Penna
Bernardo,
O Rafael (meu colega aqui de Blog) vai lançar um texto discutindo como o DJ alinha tema e mecanica. Eu li o texto e está muito bom, acho que você vai gostar.
Obrigado pelo feedback!
Sds,
Eduardo
Opa, boa noite. Rogério Aqui o/
Eu tentei gostar do Red Rising mas infelizmente não consegui. O tema com adolescentes, com distopias e tal, não deu pra mim. Eu tentei ler também um livro que se chama O nome do Vento ou o Senhor do Vento, não lembro… A sinopse do livro era muito foda, o cara era praticamente um semideus encarnado. Daí, fui lendo, fui lendo e acabei. Só sentimento de perda de tempo.
Daí entendi que curto mais fantasia mesmo se for esse tipo de livro para passar o tempo, para entreter.
Sobre o jogo, um amigo meu tem ele. Eu li as regras e elas são realmente muito simples. Joguei e achei ele um jogo ok também, que não precisava daquela produção toda. Só que o pior foi que ele meio que não conversou comigo, principalmente pela arte. Eu não sei. Acho que por conhecer, jogar muito e gostar muito a ponto de ter a versão deluxe do Fantasy Realms eu acabei criando um paralelo com ele na minha cabeça e não agradou o tanto que deveria. É um bom jogo, mas não substitui o Fantasy pra mim.
E a respeito de sua última pergunta, sobre a sensação de zerar um jogo, estou sentindo isso tem um tempo com o The Castles of Burgundy. Eu sei que o jogo é excelente pra mim, eu tenho a versão de aniversário da Alea ainda por cima. Mas ele não vem me desafiando mais. As coisas estão acontecendo meio que no automático e ele não me traz mais aquela sensação de prazer em jogar. Está se tornando apenas mais um jogo. Não sei se estou encarando ele com uma abordagem errada, mas atualmente eu quero apenas fazer os combos com as peças de cidade ou campos e ir completando o restante…
Jogo ele majoritariamente em dois jogadores, então isso talvez seja um dos motivos também. Só que não vejo a jogabilidade ou tomada de decisão aumentando em mais jogadores. A única coisa que vem aumentando é minha vontade de vender ele.
Talvez esse seja sempre o fim de um jogo médio (peso BGG): você o jogar tanto que ele não se mantém por si só.
Bom dia!
Hoje quase tudo se organiza assim: filmes viram franquias, séries ganham temporadas intermináveis e jogos recebem expansões. Existe claramente um lado mercadológico nisso — é mais fácil manter a atenção do público quando ele já conhece aquele universo. Mas, ao mesmo tempo, isso também revela algo mais profundo sobre como a cultura funciona. Raramente se cria algo totalmente do zero. O que vemos com frequência é uma espécie de “refatoração” de ideias: temas, estruturas e sistemas que vão sendo revisitados, reorganizados e expandidos.
No fim, talvez o desafio não seja evitar continuações, expansões ou novas temporadas, mas conseguir que cada nova camada realmente acrescente algo significativo ao que já existia. É o que torço com relação aos novos jogos lançados, baseados em livros, filmes ou séries: que usem essas histórias como ponto de partida para criar boas mecânicas e experiências próprias — e não apenas como um rótulo conhecido para colocar mais um produto superficial no mercado.
Ótimo texto Edu!
Sobre a questão no final,
Talvez eu tenha essa sensação de zerar os jogos quando se trata daqueles jogos que acabamos nos tornando competitivos nele, talvez pela exagerada repetição de jogar várias partidas. Sabe aquele jogo que você ja tem um domínio das varias situações que você até ja prevê e tem as soluções pra elas? Não sei se seria o caso de estar zerando o jogo ou se só consegui domar o jogo, até porque não é o caso de vencer 100% das partidas que jogo no Puerto Rico kkkk.
Acho que não vejo como um problema, nem sempre é possível fazer a partida perfeita porque nem tudo depende só da gente 😅.
Oi André,
Também não acho um problema em si não. O principal motivo de me desfazer do jogo é que realmente gosto de jogá-lo no BGA mais do que na mesa.
Obrigado pelo comentário!
Eduardo