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Por trás do Board: Rewild: América do Sul

Rafael Carvalho por Rafael Carvalho
1 dia atrás
em Blog Nórdico, Por trás do Board
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Por trás do Board: Rewild: América do Sul
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“O Brasil e toda a América Latina possuem um tesouro inestimável de fauna e flora, mas, infelizmente, estão cada vez mais ameaçados. O objetivo deste jogo é conscientizar e alertar o mundo sobre os incêndios, o desmatamento e as dezenas de espécies em risco de extinção”.  Bruno Liguori Sia (autor).

E foi com esse objetivo que foi desenvolvido o jogo da vez no “Por trás do Board”, o ganhador do Prêmio Ludopedia 2025, Jogo Expert Designer Nacional, Rewild: América do Sul, um jogo de Bruno Liguori coautoria de Marc Dür e Samuel Luterbacher, design gráfico de Marc Dür e arte de Keen Art, Joey Pool e Johanna Tarkela (e que arte meus amigos!).

Rewild foi lançado aqui no Brasil pela Grok e lá fora pela Treecer (também chamada de Treeceratops), uma editora suíça focada na criação de jogos de tabuleiro, quebra-cabeças e produtos sustentáveis com temática de natureza e conservação (se quiser conhecer mais é só clicar aqui).

E se esse é seu primeiro contato com essa série, eu sou o Rafa Carvalho, e você está no “Por trás do Board”, onde trazemos textos avaliando como a temática de um jogo é amarrada em suas mecânicas, atribuindo uma nota para essa amarração em uma escala que vai de 1 a 5, onde 1 é aquele jogo mais “abstrato”, e 5 um jogo altamente imersivo em que você entra de cabeça naquele mundinho.

Só uma última curiosidade antes de irmos para a análise, Samuel Luterbacher, cofundador da editora suíça Treecer (e coautor de Rewild), estudou Biologia na Universidade de Zurique e Microbiologia na ETH Zürich, possuindo formação acadêmica diretamente relacionada às ciências da vida. Ele também é creditado como designer de jogos com temática de biodiversidade e conservação, como Zoo Tycoon: The Board Game e Darwin’s Choice.

Então vamos para os tópicos.

1. Tema e Cartas de Ação

Rewild: América do Sul é focado na rica fauna e flora dos ecossistemas sul-americanos da Caatinga, Cerrado, Chaco (seco e úmido), Pantanal, Floresta Amazônica, Florestas secas Chiquitanas, Savana Beni, e Mata Atlântica, ecossistemas marcados por complexas inter-relações e dependências ecológicas.

No total são nove biomas representados, porém, na dinâmica do jogo, eles foram agrupados em três biomas principais e dois aprimoramentos, uma opção muito válida com o objetivo de não complicar demais as mecânicas (e que detalharemos no tópico 2).

Durante a partida, os jogadores tentam revitalizar uma paisagem explorada e destruída, cuidando da água, dos minerais e das sementes para que a vida possa florescer novamente, e faz isso através de cartas de ação. Em cada turno, o jogador joga uma carta da mão e escolhe uma das duas ações indicadas nela, usando essa ação para obter recursos, desenvolver biomas ou fortalecer seu ecossistema. Depois, pode atrair plantas e animais para sua área de jogo (também representados por cartas no tabuleiro central).

A principal decisão do jogo é qual carta jogar e quando, já que as cartas controlam o ritmo do desenvolvimento do seu ecossistema. Cada bioma permite que diferentes tipos de animais prosperem, trazendo sinergias e, com elas, oportunidades de pontuação.

2. Biomas e Recursos

Um processo de rewilding (podemos traduzir livremente como “renaturalização”) é uma abordagem de restauração ecológica que busca permitir que a natureza recupere seus processos naturais, reintroduzindo espécies nativas, restaurando habitats e fortalecendo as interações entre plantas, animais e o ambiente.

Em vez de controlar intensivamente o ecossistema, o objetivo é recriar as condições para que ele volte a se autorregular e recuperar sua biodiversidade ao longo do tempo, o que “conversa” diretamente com as mecânicas do jogo, uma vez que reconstruímos os biomas para “atrair” os animais, buscando uma restauração sustentável, e ainda “completar” o bioma, que é quando temos pelo menos uma carta de vegetação, um herbívoro, um carnívoro e um invertebrado, garantindo pontos de vitória extras.

E para ilustrar ainda mais esse processo, vou trazer aqui um exemplo muito interessante de renaturalização que aconteceu aqui nas “nossas terras”.

No período do Império brasileiro, a Floresta da Tijuca havia sido amplamente desmatada para o cultivo de café, o que comprometeu os mananciais responsáveis pelo abastecimento de água do Rio de Janeiro. Em resposta, Dom Pedro II determinou em 1861 a desapropriação de áreas degradadas e iniciou um ambicioso programa de restauração florestal liderado pelo Major Manuel Gomes Archer, com o plantio de dezenas de milhares de mudas de espécies nativas.

Aerial view of Floresta da Tijuca of Rio de Janeiro

O projeto é considerado um dos primeiros grandes exemplos de restauração ecológica do Brasil. Ao longo das décadas, a vegetação se recuperou, os recursos hídricos foram restabelecidos e a área voltou a abrigar uma rica biodiversidade. Hoje, a Floresta da Tijuca forma uma das maiores florestas urbanas replantadas do mundo, demonstrando como a recuperação da vegetação pode restaurar funções ecológicas essenciais e permitir que um ecossistema volte a se desenvolver de forma sustentável.

Retornando aos biomas sendo restaurados no jogo, como mencionado anteriormente, temos três principais: Terras Áridas, Prado e Floresta Úmida; e duas evoluções para estes dois últimos: Charco e Árvores Altas — sendo as Árvores Altas mais um complemento da floresta do que uma evolução.

Porém um total de nove biomas foram considerados na temática, e agrupados conforme citado, sendo eles:

  • Caatinga, bioma semiárido exclusivo do Brasil, ocorre principalmente no interior da Região Nordeste, estendendo-se também ao norte de Minas Gerais;
  • Cerrado, uma savana tropical rica em biodiversidade e nascentes, ambos predominantes no centro, nordeste e parte do sudeste do Brasil;
  • Chaco Seco, que apresenta florestas abertas e vegetação espinhosa em clima quente e árido, distribuindo-se principalmente pelo oeste do Paraguai, norte da Argentina, sudeste da Bolívia e uma pequena porção do Brasil;
  • Chaco Úmido, que combina florestas, savanas e áreas sazonalmente inundáveis, e ocorre principalmente no Paraguai central e oriental e no norte da Argentina, com pequenas extensões no sudoeste do Brasil (especialmente em áreas próximas ao Pantanal, em Mato Grosso do Sul);
  • Pantanal, a maior área úmida tropical do mundo, marcada pelo ciclo anual de cheias, abrangendo o Paraguai, nordeste da Argentina, leste da Bolívia e o centro-oeste do Brasil;
  • Floresta Amazônica, que reúne a maior biodiversidade florestal do planeta, estendendo-se por Brasil, Peru, Colômbia, Bolívia, Equador, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa;
  • Florestas Secas Chiquitanas, que formam uma zona de transição entre Amazônia, Cerrado e Chaco, localizadas principalmente no leste da Bolívia e em áreas adjacentes do Brasil;
  • Savana Beni, composta por extensos campos inundáveis intercalados por ilhas de floresta, encontrada sobretudo no departamento de Beni, no norte da Bolívia;
  • Mata Atlântica, uma floresta tropical altamente diversa e endêmica que se estende ao longo da costa brasileira, alcançando também o leste do Paraguai e a província de Misiones, no nordeste da Argentina.

Para restaurar e desenvolver esses biomas, utilizamos três recursos principais, água, minerais e sementes.

Em processos reais de rewilding, fatores como tempo de recuperação, conectividade entre habitats, polinizadores e impacto humano também são importantes, porém no jogo esses elementos são abstraídos e representados indiretamente pelas interações entre biomas, plantas e animais.

Considero que a escolha dos recursos utilizados fez bastante sentido como uma simplificação temática da restauração ecológica, uma vez que a Água representa a disponibilidade hídrica, fundamental para a germinação, crescimento vegetal e manutenção da fauna, as Sementes simbolizam a regeneração da vegetação nativa e a dispersão de espécies, e Minerais representam a fertilidade e os nutrientes do solo, necessários para sustentar o estabelecimento das plantas.

É muito interessante ainda observar como a mecânica de colocação de tiles de bioma não depende exclusivamente dos recursos no estoque de cada jogador, como também se beneficia de recursos já impressos no tabuleiro individual, e de “descontos” oferecidos por outros biomas adjacentes já colocados, ou seja, essa restauração se aproveita do ecossistema ao seu redor, promovendo um crescimento em escala.

Logo, além de fazer sentido do ponto de vista do design, podemos dizer que a escolha dos recursos e sua relação com os biomas foi muito válida, pois captura os fundamentos de um ecossistema terrestre — água, propagação vegetal e nutrientes — sem sobrecarregar o jogo com muitas variáveis, deixando o foco com a criação das relações entre espécies, que é justamente a essência do conceito de rewilding.

3. Fauna

Aqui chegamos na parte mais legal do jogo, que são os animais, divididos entre Herbívoros ou Insetívoros (pequeno, médio e grande), Predadores, Super Predadores, e invertebrados, representados por cartas com uma arte maravilhosa, e é claro, por “animameeples” que são uma sacanagem (obs.: alguns desses meeples entram só no modo “expert”, mas não tem grande impacto na parte temática, por isso não vou entrar no detalhe das diferenças).

O primeiro ponto aqui é que se vê sim um cuidado muito grande na relação dos animais com o ecossistema em que vivem, e com sua ocupação neste ecossistema, que é representada por marcadores de animais que você coloca sobre os tiles de biomas (umas “patinhas” de madeira bem bonitinhas).

Dando aqui alguns exemplos, temos: o Queixada, que ocupa 3 espaços no Prado, e apenas um na Floresta úmida, afinal, ali os recursos são mais abundantes, evitando que o animal tenha que se deslocar por grandes territórios para conseguir se alimentar; o Bicho-Preguiça, endêmico apenas da Floresta Úmida, e habitando Árvores altas; e o Tamanduá Bandeira, uma espécie generalista, capaz de viver em diferentes biomas e condições ambientais.

Existe também o cuidado de tentar manter os efeitos de pontuação fazendo sentido, como o Tamanduá mirim, que pontua por invertebrados não predados no fim da partida (afinal, sobra mais alimento para ele), o Urubu, que é um necrófago, e pontua por herbívoros predados (não preciso nem explicar) e a Cutia, que aparece na carta comendo um fruto, e pontua pelo recurso de sementes que restarem no estoque do jogador.

Outro ponto de destaque em Rewild são as cartas de predadores. Na ação de predação, o jogador atrai uma destas cartas e a posiciona sobre a carta de um herbívoro, sendo o tipo de predador (normal ou “superpredador”), sempre muito bem amarrado com o tipo da presa e com o bioma ao qual ele pertence.

Nota: em alguns casos pode ser também uma carta de “insetívoro” posicionada sobre uma carta de invertebrado, seguindo as mesmas regras.

A presa permanece sob a carta de predador, e deixa de contribuir com sua pontuação de final de partida, enquanto o predador concede pontos imediatos (dica: por isso é sempre melhor predar animais que já deram benefício imediato).

Essa mecânica se relaciona muito bem com a temática, pois a predação é um processo natural que ajuda a regular populações e manter o equilíbrio dos ecossistemas, sendo apresentada como parte essencial de um ambiente saudável e biodiverso.

Mas nem tudo são flores, tem questões que privilegiam a mecânica, como por exemplo a carta de herbívoro ou invertebrado, que quando predado perde seu efeito de pontuação de final de partida (ícone da ampulheta), afinal, aquela espécie de fato não deixou de existir no ambiente (seus marcadores de ocupação permanecem sobre o bioma), ela apenas encontrou um predador natural, demonstrando ser um habitat equilibrado, mas é claro que levanto esse ponto partindo da análise temática, e entendo que esse efeito de jogo funciona, por trazer escolhas estratégicas para o jogador na construção dos seus biomas.

Outra questão é sobre não haver a coexistência de espécies em um mesmo espaço de bioma em Rewild, como de fato ocorre na natureza, algo que é inclusive explorado em um outro jogo, Ark Nova, onde algumas espécies de herbívoros podem ocupar um mesmo recinto do zoológico.

Entendo que esse ponto não é necessariamente um erro, e sim uma escolha de simplificação da mecânica, porém aqui estamos avaliando temática, e a forma como os biomas são definitivamente “bloqueados” por uma espécie nem sempre faz total sentido. Eu mesmo fiquei um pouco frustrado de ver que bloqueei permanentemente dois espaços da minha terra árida porque coloquei ali um simpático Besouro rola bosta! Quer dizer que onde tem rola bosta não pode haver herbívoros ou predadores?

“Talvez” essa definição de espaços ocupados tenha levado em consideração também o futuro predador daquela espécie (no exemplo, um insetívoro), uma vez que as cartas de predadores sobrepostas não adicionam novos marcadores de animais (ocupação), mas é só uma suposição.

Outro ponto que percebi na segunda partida diz respeito à variedade das espécies, e acabei encontrando alguns comentários nesse sentido também em fóruns no BGG e na Ludopedia. Eu fiquei com meu bioma de florestas úmidas quase pronto por boa parte da partida, e terminei sem conseguir concluí-lo por não vir uma bendita carta de invertebrado daquele bioma.

Acontece que no deck básico de vida selvagem são 47 cartas de “vertebrados”, contra apenas 11 de invertebrados. Eu “imagino” que foi uma escolha muito mais estética, afinal uma Capivara tem muito mais apelo que um Muriçoca (e eu concordo!), porém em termos de temática, temos centena de milhares de invertebrados na América do Sul, mais de 90% de todas as espécies catalogadas, contra ~3-6% herbívoros vertebrados, e ~1-3% de carnívoros vertebrados.

É claro que essa relação não faria sentido na mecânica! Ainda assim, acredito que uma presença um pouco maior de invertebrados cairia bem, destacando ainda mais sua função para o equilíbrio dos biomas, já que os invertebrados são essenciais para os ecossistemas, atuando na polinização, decomposição, reciclagem de nutrientes e sustentação das cadeias alimentares, e sua ausência compromete a fertilidade do solo, a regeneração da vegetação e o equilíbrio ambiental.

E falando em vegetação, vamos para o último tópico da análise, a Flora.

4. Flora

A flora em Rewild é representada pela simbologia presente nos biomas, mas também pelas cartas de vegetação, adquiridas por meio do recurso semente, ponto para a temática!

Também consigo ver o cuidado em relacionar os efeitos, mas para as cartas de flora essa relação fica mais abstrata, pois, além de haver muitas cartas sem efeito direto (basicamente usadas para cumprir requisito de uma carta de vegetação por bioma), as cartas de vegetação não foram “nomeadas”, sendo bem mais genéricas.

Acredito que se essas cartas trouxessem nomes e arte de espécies reais, identificadas de acordo com seu respectivo bioma, engradeceria ainda mais o jogo.

Sobre a arte, até é possível identificar uma ou outra espécie, mas não me parece ser algo que se aplica a maior parte das cartas.

5. Veredito

E é isso, Rewild se destaca não apenas como um jogo de estratégia, mas também como uma ferramenta de conscientização ambiental, ao colocar a biodiversidade sul-americana no centro da experiência.

Ao representar biomas, plantas, animais e suas interdependências ecológicas, o jogo ajuda os jogadores a compreender a complexidade dos ecossistemas e a importância de sua conservação, aproximando o público de temas ambientais de forma acessível e envolvente, e valorizando a riqueza natural do Brasil e da América do Sul.

No entanto, a implementação desta temática respeitou primariamente a proposta mecânica do jogo, de ser um jogo leve e rápido, o que, é claro, traz algumas limitações em aplicar mecanismos mais “literais”.

Com isso, chegamos à tabela a seguir, avaliando cada um dos tópicos principais, e chegando à pontuação final de 3,0, um jogo acima da média na nossa escala, portanto, é sim um euro com bom nível temático.

Deixo também o atual ranking de amarração temática dos jogos avaliados aqui no “Por trás do Board”, com os Links para você conferir!

JOGOS NOTA
Hegemony: Conduza sua Classe à Vitória 4,60
Brass Lancashire 4,30
O Inconsciente 4,00
Pan Am 3,80
Darwin’s Journey 3,14
Rewild: América do Sul 3,00
London: Segunda Edição 3,00
Tzolk’in: O calendário Maia 2,83
Trajan 2,38

E é isso povo, espero que tenham gostado! Deixo os agradecimentos pelas dicas e revisões de Michelle (minha esposa), Eduardo (blog do Covil) e Raony (amigo e Biólogo), e peço que deixem o like e um comentário, é a sua forma de incentivar o canal, e não deixe de dar sugestões de jogos para nossa série! Até a próxima!

Tags: Grok Games
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Pai da Alyssa e da Bia, esposo da Michelle, Professor Universitário, Dr. em Gestão do Conhecimento, Board Gamer, Covileiro e RPGista. Visite o perfil no Instagram: @ludosidebg

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