
Não é só o Paulo que se amarra no “cheirinho de board game novo”. Tanto que, nos Estados Unidos você pode comprar uma vela que emula esse perfume (procure nesse site aqui).
Infelizmente, um jogo só é novo uma vez na vida. Ele chega na sua casa, você abre a caixa, destaca os punch boards, arruma as coisas em saquinhos ou no insert, eventualmente marca uma jogatina para estreá-lo e… começa a achar que precisa de uma nova caixa para ocupar o vazio existencial que ficou.
Comprar jogos é prazeroso e pode se tornar uma compulsão. Esse texto é uma reflexão de alguém que com certeza vive flertando com isso. Na tentativa de me tornar um consumidor mais consciente, racionalizei 4 fatores que percebo que atuam em mim quando penso em comprar jogos e, achei que dividir isso poderia ser útil não só a mim (porque o exercício de escrever me obriga a pensar mais na questão) mas também àqueles que se percebem com o mesmo problema.
Se você está feliz com o que tem e faz, por favor, esse texto não é para você. Somos adultos e cada um faz o que quer com seu dinheiro e sua vida. Esse texto é para quem, como eu, acha que talvez precise rever sua relação com o que compra e o que acumula em casa e que talvez a melhor forma de curtir os jogos seja tentar aproveitar melhor o que já tem em vez de ficar sonhando com um jogo perfeito (que nunca é um dos que já está na sua coleção).
Feito o disclaimer, os quatro fatores que atuam em mim são o desejo, a oportunidade, o dinheiro e o espaço.
“Posso resistir a tudo, menos a tentação”

Ah, o desejo… Com certeza, esse é o principal fator. Você compra o jogo porque você o quer. Se não quisesse, não comprava.
O ponto é, o que nos faz querer um determinado jogo? É uma vontade real, consistente, que já foi racionalizada numa decisão de compra informada? Ou é uma compra de impulso, movida pela oportunidade?
Muitas vezes, compramos um jogo não porque queremos jogar muito aquele jogo específico, mas porque essa é uma forma de “se mimar” e atender a uma carência momentânea de prazer.
Foi assim que a Celine Dion se viu com 10 mil pares de sapatos e que muitos de nós tem mais 500 jogos em casa, com todos os problemas logísticos que isso traz.
Não há problema nenhum nisso, se isso é o que você quer e pode sustentar isso. Agora, se você percebe que isso o atrapalha ou se você se vê fazendo racionalizações idiotas para justificar compras (tipo, preciso ter todos os jogos italianos cujo nome começa com a letra “T”), talvez seja uma boa pensar no assunto.
Quando começamos no Hobby, não temos um gosto definido e começamos a comprar jogo de tudo que é tipo. Aos poucos você começa a filtrar mais ou seu gosto. Por outro lado, você começa a conhecer jogos mais obscuros e descobre formas mais sofisticadas de explorar o catálogo. Você passa a entender como funcionam os financiamentos coletivos, os leilões, descobre uma loja em Estrasburgo que tem tudo que te interessa e por aí vai…
E claro, você não compra jogos apenas para você, pois você não joga sozinho. Você é o curador dos seus amigos, sempre é bom ter um party game novo para receber as pessoas com algo que as surpreenda…
Então, não adianta, precisamos ser sinceros com nós mesmos. Eu sempre estou querendo um jogo de tabuleiro novo. Se eu percebo que preciso controlar isso, devo priorizar os demais fatores. Se a vontade mandar, nós vamos acabar comprando, porque sempre tem algo que “estamos querendo”.
Para mim, nesse sentido, o melhor a fazer é evitar as compras de ocasião. Tentar refrear o desejo inicial e só comprar algo depois de refletir sobre isso, analisar o que já comprou e o que pretende comprar naquele mês.
Porque as oportunidades vão aparecer e se você não estiver preparado, vai acabar comprando coisas que não quer tanto assim…
A Ocasião faz o Ladrão?

Não importa quanto você queira um jogo ou quanto esteja disposto a pagar. Para comprá-lo, você precisa ter alguém vendendo.
E eis que de repente, por acaso você estava olhando o site da Playeasy e vê um jogo novo que lhe interessa!
Vamos discutir aqui dois tipos de oportunidade. Uma, mais corriqueira, é a oportunidade de comprar um jogo novo no mercado brasileiro, dentro do que as editoras e a lojas oferecem. Dificilmente esse tipo de compra tem que ser feito na ocasião, você tem tempo para refletir e fazer uma escolha consciente.
Outro caso porém é quando você está viajando e vê algo muito inesperado numa loja estrangeira ou encontra uma raridade em leilão, ou se você vai a uma feira como a Essen Spiel. Você estará lidando com uma oportunidade que não se repetirá tão cedo. Você está preparado para isso?
Em um mundo ideal, todos os jogos lançados deveriam estar em catálogo e disponíveis para compra.
Só que a vida real não é assim. Pouquíssimos jogos estão sempre disponíveis para compra: são os evergreens, que sempre tem venda forte e nunca saem de catálogo: vão desde os jogos de apelo geral (como Banco Imobiliário, War, Uno) até alguns poucos jogos modernos como o Ticket to Ride, Catan e o Azul.
Na Europa e nos Estados Unidos isso é mais comum. No Brasil, pouquíssimos jogos alcançam esses status. A grande maioria dos jogos são lançados aqui com uma tiragem limitada e, caso esta não se esgote no lançamento, é quase garantido que o estoque se esgote após uma black friday da vida.
É dessa dinâmica que nasce o FOMO (fear of missing out) ou, em bom português, o medo de ficar de fora. O seu sentido de prioridade natural acaba sendo alterado porque você teme não encontrar um determinado jogo no futuro.
Muitas vezes as editoras criam artificialmente esse senso de urgência sobre a gente, seja com financiamentos coletivos, pré-vendas, etc.
Para o Hobbista, a viagem ao exterior é uma dupla ameaça: primeiro, você vai ter a oportunidade de encontrar jogos, seja de catálogo ou lançamentos que talvez nunca sejam lançados no Brasil e segundo, o preço com certeza será pelo menos 40% abaixo do que você pagaria normalmente por aqui.
E se você viaja para ir a Spiel, quem você está querendo enganar? Você vai voltar com muita coisa, é para isso que se vai a Essen! Não é para socializar, não é pra jogar. Não se engane!
Quando eu vou viajar eu sei que vou comprar jogos, então eu tento programar de antemão as principais compras (se possível encomendando antes), mas sempre deixo algum espaço para uma compra de ocasião. Pelo menos comigo, o limite das malas funciona para evitar que o estrago seja muito grande.
Dinheiro na mão é vendaval

Sem gasolina o carro não anda. Não há o que comprar se você não tiver dinheiro ou crédito (que nada mais é do que dinheiro do futuro).
Apesar das constantes reclamações sobre preço de jogos, me parece que esse fator não tem sido um limitador tão grande assim. Os jogos aumentaram MUITO de preço e mesmo assim nunca se vendeu tantos jogos.
A verdade é que ainda que os preços estejam altos como nunca, o jogo de tabuleiro ainda é algo relativamente barato. Estamos falando de um bem que é relativamente durável e que em boa parte das vezes tem um valor considerável de revenda. Muita gente financia o seu hobby comprando lançamentos, jogando-os rápido e vendendo-os enquanto eles estão na crista da onda.
É por isso que eu sempre observo as reclamações sobre preço com um grão de sal. Todo mundo quer pagar menos e ganhar mais. Se as pessoas continuam comprando, e o mercado está vendendo mais do que vendia antes, não menos, pode estar mais caro do que era antes, mas não está ainda tão caro como poderia estar. O dia que estiver realmente caro, e que a maioria das pessoas acharem que não está valendo a pena, as vendas vão cair e jogos vão encalhar.
Se isso acontecer, é provável que tenhamos um crash, isto é, uma queda repentina de demanda, com a grande maioria dos compradores se recusando a pagar o que está sendo cobrado.
Existem alguns fatores que me fazem pensar que estamos perto disso: o aumento vertiginoso do número de lançamentos e editoras, a quantidade cada vez maior de gente despejando jogos usados para venda na Ludopédia e outras plataformas. Porem, parece ainda haver muito dinheiro no mercado absorver isso tudo.
Eu acompanho o mercado de jogos de tabuleiro há dez anos e sempre acho que estamos a beira de um crash. Até agora, ele não aconteceu. Acertarei um dia? Não tenho mais tanta certeza.
A estante não é a bolsa do Gato Félix
O último ponto demora um pouco a ser um problema para a maioria das pessoas, mas hoje é o meu principal limitador (aliás, é a unica força que realmente me faz perceber o problema). A falta de espaço.
Talvez a grande maioria nunca venha a ter esse problema de fato. Porem, se você é como eu, em algum momento você começa a ter jogos espalhados pela casa e não tem mais onde colocá-los. Infelizmente, as estantes não são como a Bolsa do Gato Félix, onde cabia tudo e muito mais. Elas tem espaço limitado e, pelo menos no curto prazo, não tem como ser aumentadas.
A primeira solução que tive tentar readequar o espaço, fazer uma estante nova, específica para os jogos. Me livrei tambem de boa parte dos meus livros e cds velhos, que deixaram de fazer sentido no mundo do streaming e do Kindle. Isso deu um certo alívio, que já está acabando.
O segundo passo é perceber que você precisa se livrar de alguns jogos. Aí você vai tentar vendê-los e descobre as delícias de ser um “fornecedor” na Ludopédia. Você diz que não quer troca e as pessoas te oferecem trocas. Você lida com gente que dá lance e depois quer desistir. E mesmo quando tudo funciona, a Ludopedia demora a pagar. Eu mesmo nunca peguei dinheiro, acabei deixando o crédito lá para usar em leilões.
Uma coisa que passei a fazer é doar jogos para amigos. O jogo que para mim as vezes é simples demais ou que simplesmente não tenho com quem jogar, é perfeito para um amigo que não é do hobby e curte um jogo mais casual. Um jogo muito pesado que eu já enjoei ou não tenho mesa pode fazer a felicidade de um outro amigo (e eu sabendo que ele tem o jogo, posso jogar com ele quando der vontade). Só o fato de doar já gera a oportunidade de colocá-lo na mesa, para explicar a regra e jogar com o novo dono.
Reconheçamos poirem que tudo isso é meio paliativo para o problema principal. Os jogos ocupam espaço e, como colecionadores, temos uma tendência a ter mais jogos entrando do que saindo da coleção. Eu não consigo criar regras draconianas como “para entrar um novo tem que sair algo”. Então eu preciso fazer alguma coisa em relação a isso.
Resumo da Ópera
Pelo menos no futuro próximo, me parece que continuaremos tendo cada vez mais lançamentos e não menos. As empresas aprenderam que priorizamos jogos novos e elas diminuíram o ciclo de vida dos jogos no mercado para sempre estarem oferecendo novidades. Os jogos estão, de certa forma, ou cada vez mais rasos, ou no mínimo tendo que ser muito atrativos na primeira partida, pois os designers sabem que não tem como contar com um jogo cujo interesse cresça organicamente, a medida que ele vai sendo mais jogado. Os jogos estão mais caros e, apesar das queixas, as compras não abaixaram, aumentaram. E, por fim, pelo menos no médio prazo, o espaço livre em casa é bem limitado.
Dos quatro fatores que analisamos, 2 deles me empurram a comprar jogos (desejo e oportunidade), o dinheiro, no meu caso, é uma força neutra (eu ganho bem, não tenho filhos) e o que me regula mesmo acaba sendo o espaço. Então, eu tenho uma tendência a comprar jogos novos (pela dinâmica do Hobby e pela necessidade de ter material para escrever) e o espaço que tenho não vai aumentar.
Resultado: EU TENHO QUE DIMINUIR MINHA COLEÇÃO. Em algum momento, vou ter que fazer uma dificil escolha e doar ou vender pelo menos uns 30% dos meus jogos para ter viabilidade de acomodar os jogos novos que fatalmente comprarei.
Então, tenho que começar a criar critérios para priorizar os jogos que manterei.
Meu plano vai ser tentar ficar com os jogos que estão indo contra corrente. Vou tentar manter os jogos que tem curva de aprendizado mais forte e que não se tornam mais do mesmo tão rapidamente. Jogos que não estejam no BGA. E alguns que me fazem feliz de ver na estante, mesmo que quase nunca sejam jogados, como o Churchill da GMT.
E com isso espero ter uma certa margem de manobra para que, quando viaje, não fique tendo que controlar tanto o que estou comprando!
Gostaria de ouvir de vocês que tem problemas parecidos como fazem, se é que fazem alguma coisa.


Ótimo Texto! Me identifiquei muito com essa parte: “E claro, você não compra jogos apenas para…Você é o curador dos seus amigos…”. Impressionante como a escolha de um novo jogo passa também pela análise de “com qual mesa vai funcionar”. No meu caso a vatangem (não para o bolso rsrsrs) é ter grupos para todos os gostos.
Valeu Rafa! Esse ponto me pega muito, já comprei muito jogo pensando nos outros e acabei não jogando-os.
Obrigado pelo feedback!
Sds,
Eduardo