Você chegou em casa cansado do trabalho. Você quer relaxar, mas você é um jogador de board games. Como nós relaxamos? Jogando…
Então você convida sua esposa para um joguinho. Algo tranquilo, de tema sereno, que não estimule tanto a competição entre vocês. A ideia é ter um passatempo, algo para relaxar, esfriar a cabeça.
De repente você se vê em uma disputa frenética. Apesar do jogo escolhido ter um tema “bonitinho”, a sua mecânica é super punitiva e você se vê quebrando a cabeça e fazendo contas quando isso era tudo o que você NÃO queria.
Pois bem, você caiu na versão do board game para o conto do “lobo em pele de cordeiro”. O jogo que pelo tema parece super tranquilo, mas que no fundo te arrasta para uma competição atroz.
Esse é o caso de Fountains. Desenvolvido por Kedric Winks e lançado em 2025 pela The Op Games (ainda não lançado no Brasil), ele propõe uma competição de arquitetos para ver quem produz o melhor chafariz. Como veremos, a competição tem suas particularidades, e o vencedor não é necessariamente quem criou o “melhor” chafariz.
É no Chuê-Chuê…
Estamos na cidade de Florimelle, onde o prefeito resolveu fazer um concurso para construir diversos chafarizes pela cidade. Nós somos um dos arquitetos convidados e nossa meta é fazer um chafariz que melhor pontue no concurso.
A construção dos chafarizes é representada no jogo por um sistema de compra e colocação de peças. Existem seis tipos de peças diferentes, representando “piscinas” de um chafariz. Cada tipo de peça forma uma pilha que fica associada a uma posição de um rondel no tabuleiro central. Esse rondel possui três peões,um azul, um verde e um branco. Na sua vez, você escolhe um deles e avança até 3 casas, pulando um peão que esteja na sua frente (casas com um peão presente são puladas sem contar). Quando faz isso, você compra a peça de cima da posição onde parou e a coloca no seu chafariz.

As regras de construção do chafariz são detalhadas, mas fazem sentido. Algumas peças tem fonte de água, outras não e algumas tem saídas para que a água possa derramar. A ideia é colocar fontes derramando água em piscinas que fiquem embaixo, de modo a manter a água corrente. Se alguma piscina não tem fonte ou não recebe água de uma outra piscina, ela cria lodo (e isso a impede de pontuar).
As peças precisam se encaixar no chafariz já existente pelos pontos de ligação (os cantos, coloridos com um tom mais escuro). As peças que estão acima não podem ficar “sobrando” para fora das peças que estão abaixo.

Além das fontes, as peças podem vir com moedas (que são pontos imediatos), peixes ou vitórias régias, ou mesmo com espaços para receber adornos posteriormente (que podem ser comprados no sétimo espaço do rondel).

Lembra que os peões têm três cores? Pois cada um deles está associado a uma das possíveis pontuações do jogo. Sempre que um deles para na sua casa de origem, é iniciada a pontuação que ele representa:
- O peão azul determina uma pontuação determinada por quem tem mais piscinas ativas (isso é, com água corrente), independendo da quantidade de piscinas em si (o primeiro ganha 10, o segundo 6, etc).
- O peão branco determina uma pontuação pela quantidade de peixes. Os peixes vem em três cores (branco, vermelho e preto) e jogador que provocou a pontuação determina a cor que vai pontuar. Cada peixe vale um ponto vezes o andar relativo da piscina em que está (lembre-se, o chafariz pode ter vários níveis de altura). Um peixe no segundo andar vale 2 pontos, no terceiro vale 3 e por aí vai. Alguns peixes são coringas, valendo para qualquer cor.
- O peão verde determina uma pontuação pela quantidade de vitórias régias. Cada jogador verifica o seu maior grupo de vitórias régias que estão adjacentes (isso é, em piscinas que se conectam diretamente, sem uma piscina sem vitórias régias separando-as). Cada vitória régia conta exatamente da mesma forma que os peixes, um ponto vezes o andar de onde ela está.
Os jogadores alternam-se em turnos até que uma das pilhas de peças termine. Então, completa-se essa rodada, realiza-se uma última pontuação de cada tipo (cada jogador escolhe a cor de peixe que vai pontuar) e é isso. Quem tiver mais pontos é o vencedor.
Estratégia
O que torna Fountains um jogo extremamente competitivo é o fato da pontuação ser determinada pelas ações dos jogadores. Você não pode simplesmente escolher a peça que mais lhe interessa e pegá-la, porque ao fazer isso você pode estar dando a oportunidade do adversário provocar a pontuação que o interessa. Todos pontuam, mas é lógico que cada um vai tentar provocar apenas as pontuações que lhe interessam.
Acaba sendo um jogo muito marcado. Você quer construir o seu chafariz mas tem que fazer escolhas defensivas. Isso as vezes vai fazer você montar seu chafariz de uma forma não muito eficiente.
Às vezes, a peça com o formato que você precisa não tem fonte de água, aí você precisa esperar que alguém a pegue para ver se no turno seguinte uma peça melhor estará disponível.
O Lobo em pele de Cordeiro
A questão que esse jogo traz é que o seu tema e o seu marketing passam uma certa impressão de que é um jogo tranquilo, de baixa interação, você está montando ali seu chafariz, o amiguinho está montando o dele e todo mundo é feliz.
Só que não. Você tem um puzzle razoavelmente complexo para resolver, ao mesmo tempo que tem que dar conta de três pontuações diferentes, tentando se manter razoavelmente bem nas três possibilidades, ou de evitar que uma pontuação desfavorável aconteça a toda hora.
Isso não torna o jogo ruim, muito pelo contrário. Se o que você busca é um jogo bem competitivo, ele é ótimo. Mas é bom avisar a galera que prefere um multiplayer solitaire onde eles estão se metendo. Você está muito longe do que um Cascadia ou Verdant oferecem.
Esse jogo acabou me lembrando muito do Arboretum, onde você em tese está montando caminhos de árvores, mas só pontua se manter o controle daquele naipe, ou do Cálico, que torna a produção de um mero bordado em uma competição feroz pelo tile correto (que se perdido dificilmente você o pegará de novo).
Veredicto
No caso de Fountains, confesso que fui surpreendido. A qualidade física do jogo é muito boa, ele fica muito bonito na mesa, mas eu tive que ajustar meu mindset para jogá-lo.
Espero que ele venha para o Brasil, pois é um ótimo abstrato e estamos com poucos lançamentos desse tipo por aqui.
Nota 8.
Como o site do Covil voltou ao ar, vou reiniciar os sorteios. Farei isso no próximo texto que continuará a série de Clássicos do Board Game.
Porém, nesse meio tempo, também por causa do tempo que ficamos sem site, eu resolvi abrir um blog próprio, o Fora da Caixa. Nesse site, além das minhas crônicas de board game, eu falo de diversos outros assuntos, como música (estou analisando uma lista de 200 discos de rock progressivo) e a Copa do Mundo (sobre a queal estou escrevendo textos quase diários).
Então, a partir de agora, até para ajudar na divulgação do novo site, eu vou sortear os jogos entre quem fizer comentários no site do Covil ou no Fora da Caixa.
O Jogo a ser sorteado Ainda é uma surpresa, mas já adianto: será um jogo dos mesmo autores do jogo que será apresentado como sexto grande clássico da lista.
Alguém quer chutar?
