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Doff 2026 – Um evento (e um hobby) em evolução

Eduardo Vieira por Eduardo Vieira
38 segundos atrás
em Blog Nórdico, Fora da Caixa, Geral
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Doff 2026 – Um evento (e um hobby) em evolução
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upload in progress, 0A adolescência é um período complicado.

Por um lado, há um mundo de opções e possibilidades a explorar. Você ainda não é adulto, o preço de recomeçar não é tão alto. Você já tem algumas liberdades, já pode pegar ônibus, eventualmente até viajar.

Por outro, já existem responsabilidades e expectativas. Há cobrança. Normalmente, ainda depende dos pais. Você ainda não é adulto, mas não é mais criança e nem sempre o mundo externo vai saber pesar isso da melhor maneira. Pior do que isso, você também não vai saber e vai meter os pés pelas mãos de vez em quando.

São as tais “dores do crescimento”. Ela acomete não só pessoas, mas instituições e até indústrias, como é o caso específico daquela que nos interessa aqui, a indústria nacional de jogos de tabuleiro e do evento que todo ano, de alguma forma, a representa: o Diversão Offline (Doff).

Nesse artigo eu vou analisar o Doff sobre vários aspectos: as questões logísticas, como as principais editoras se apresentaram, o que eu joguei, o que eu vi além dos jogos de tabuleiro e, por fim, vou fazer uma análise sobre o quanto o hobby cresceu desde que eu comecei a jogar jogos modernos, oito anos atrás e o ponto que estamos hoje, mas também vou olhar para cima e verificar qual o nosso tamanho em relação ao absoluto do que poderíamos ser.

Logística

A questão da fila, que foi o pior problema do ano passado foi resolvida de maneira exemplar. A ideia de fazer as pessoas entrarem com o QR code do ingresso e pegarem o crachá dentro do evento, caso o quisessem, foi uma ótima sacada.

Tanto na sexta quanto no sábado eu cheguei com a feira já aberta, por volta das 10h30 e 11h. Na sexta não havia fila nenhuma — o público era reduzido — e no sábado, apesar de uma fila de cerca de 150 metros para fora do pavilhão, ela andava rápido. Em 15 minutos eu já estava lá dentro.

Não houve mais aquele imenso espaço não aproveitado do ano passado (ou pelo menos ele foi melhor escondido).

Em termos de alimentação e espaço de convivência a coisa melhorou muito também. Havia pelo menos o dobro de opções de comida em relação ao ano anterior e havia lugar para que as pessoas sentassem com calma.

As pessoas costumam reclamar muito dos preços, mas isso é padrão de qualquer evento desse tipo. As concessionárias pagam para estar ali e precisam recuperar o dinheiro em três dias. Não tem muito jeito.

De maneira geral, podemos dizer que as críticas que fizemos no passado foram ouvidas e atendidas. Parabéns ao evento.

Jogos de Tabuleiro

Entre as editoras grandes, tivemos duas grandes baixas esse ano: a Devir e a Paper Games.

As demais estavam praticamente todas presentes: os maiores estandes eram os da Asmodee, Meeple BR, Grok e Across the Board e a novata Hoihoi.

É importante destacar também a enorme quantidade de pequenas editoras ou designers independentes. Eu vi muita coisa da qual eu nunca tinha ouvido falar, o que é muito legal. Quando você vai numa feira dessas, você quer ver novidades!

De maneira geral, todas as editoras estavam com bom acervo de novidades e catálogo para venda. No geral, havia estoque para atender a todos, com exceção talvez do Hot Streak (da Asmodee), que evaporou tanto na sexta quanto no sábado.

Uma coisa inevitável são as filas para comprar jogos. No sábado elas realmente estavam grandes. Até mesmo a Mosaico, que vende jogos mais caros e mais pesados (e com isso costuma ter um público mais nichado) estava com uma fila enorme no corredor. As editoras tentaram agilizar, com apps de pré-compra, onde a pessoa faria a lista enquanto está na fila para só apresentar e pegar os jogos. Não sei se adiantou.

O que eu acho que poderia ser feito é fazer uma pré-venda. A pessoa poderia fazer o pedido antes e já deixar pago, no estande ela só pegaria o jogo, numa fila separada.

Para jogar, acho que havia um espaço razoável. Estava tudo cheio, se você quisesse jogar um jogo específico ia ter que esperar, mas de maneira geral sempre tinha uma ou outra mesa com espaço.

Falando em jogar, infelizmente foi algo que não consegui fazer tanto. Estando a maior parte do tempo sozinho, eu dependia de entrar em mesas que faltavam alguém para completá-las. Eis os jogos que joguei:

  • Roda de Tricô (Grok): É um spin-off do Calico. Aqui você está tricotando roupas e compra peças em um rondel (muito parecido com o do Fountains). A cada peça completada você pode adicionar botões para aumentar o seu valor. É um jogo bem familiar, regras simples e bem tranquilo de jogar.
  • Big Sur (Grok): A cada turno você compra duas cartas e pode construir uma. Os recursos são as próprias cartas que estão na sua mão, a carta do topo da pilha de descarte (o que traz um planejamento interessante) e os recursos demonstrados nas cartas já construídas (mais ou menos como no Splendor). As cartas pontuam quando você completa um setor (três símbolos do mesmo tipo de paisagem). Esse me surpreendeu bastante, não dava nada por ele. Acabei comprando.
  • Evil Villager (Across the Board): esse é um jogo nacional que estava em demonstração, mas ainda não foi lançado (pelo que entendi, a expectativa é de sair no ano que vem). É uma espécie de “dudes on the map” com uma mecânica de dedução social. O jogo acaba sendo bem caótico, mas é divertido. O tema talvez pudesse ser mais apurado. Se a ideia é fazer algo com tema nacional, porque usar dragões e não a Mula sem Cabeça? Ainda assim, eu gostei da ideia. O jogo foi apresentado pelo autor, Rafael Ferreoli e acredito que tenha público para essa proposta.

Acabou que eu não tive chance de jogar muitos dos jogos pelos quais estava interessado (dos quais eu falei no texto pré-evento). O Maestro, por exemplo, eu cheguei a ver um cara da Mosaico montando o setup. É tanta coisa que me desanimou. Eu ando perdendo um pouco a paciência com jogos que dão muito trabalho para serem postos na mesa.

Hobbies paralelos

O Diversão Offline acaba sendo um evento não só de jogos de tabuleiro, mas de uma série de hobbies analógicos, como RPG, War games e Pintura de Miniaturas.

A comunidade do RPG é muito grande. Havia pelo menos dois grandes estandes de venda de livros, uma área de jogo enorme com vários grupos jogando. O Doff patrocina um prêmio, o Goblin de Ouro, que é dado a diversas categorias da modalidade.

A comunidade de pintura de miniaturas também sempre é bem concorrida e ter um estande dedicado aos wargames combina bastante com isso, pois são duas atividades que conversam entre si.

Não tão popular, mas curioso, era a parte de luta medieval. Tinha uma galera ensinando a lutar com armas brancas e escudos (todas na verdade estofadas, para evitar problemas). O negócio era bem animado, mas tem os seus riscos. No fim da sexta-feira, o pessoal de primeiros socorros foi chamado a atender uma pessoa que caiu mal e se machucou.

Jogos milenares

O setor de “Jogos Milenares” ocupava uma boa espaço do evento, com várias mesas dedicadas a clássicos como Xadrez, Go, Damas e diferentes estilos de Mancala (como o Owari).

A supervisão ficava por conta de quatro professores da rede municipal de São Paulo, que participam de um projeto da Prefeitura para ensinar esses jogos aos alunos da rede pública. Além de oferecer lazer, o projeto busca apresentar jogos de diversas culturas — especialmente os de Mancala, muito populares em regiões da África e da Ásia.

Esses professores começaram a participar de campeonatos online de Mancala e acabaram se classificando para os “Jogos Nômades Mundiais”, uma espécie de Olimpíada realizada na Ásia Central que celebra a cultura desses povos milenares. Para conseguir viajar até o Quirguistão, eles abriram uma campanha de arrecadação — a viagem é complicada, mas o entusiasmo deles é contagiante. Quem puder ajudar, o link está disponível.

Sou um grande fã de jogos clássicos e já escrevi algumas vezes sobre Xadrez e Go. Aproveitei a oportunidade para conversar com o Diego, um dos professores. Ele percebeu que eu já conhecia as regras do Go e me explicou conceitos de cerco e as famosas “escadas”. Depois, me deu uma verdadeira aula de Owari, comentando uma partida inteira e mostrando as principais táticas. Naturalmente, apanhei feio, mas foi uma experiência excelente.

Para quem quiser saber mais, deixei também o link da entrevista que fizemos com eles durante o evento.

Qual o nosso real tamanho?

Oito anos atrás eu fui no primeiro Diversão Offline, ainda aqui no Rio de Janeiro. Foi em setembro de 2018, no Espaço Sul América, um centro de convenções relativamente pequeno, na área da prefeitura.

Para quem foi, foi uma beleza. Sobrava mesa para jogar, dava para comprar jogos com bons descontos e houve alguns lançamentos bacanas, como o Capitão Sonar, um jogo onde dois times comandam cada um seu submarino numa espécie de batalha naval. Esse jogo foi inclusive apresentado pelo próprio autor, Yohan Lemmonier. Junto com o seu time, ele desafiava o público a ganhar deles.

A questão é que, se foi bom para a gente, provavelmente não foi tão bom para os exibidores. Apesar de ter 3.000 participantes, foi o último evento no Rio de Janeiro.

Em São Paulo o evento prosperou. Precisou buscar um lugar maior (o Pró Magno e, nos últimos dois anos, o Expo Center Norte). A previsão desse ano (que não sei dizer se foi confirmada) era de 15 mil pessoas no evento.

É um crescimento de 500% em relação ao evento aqui do Rio em 2019. Nada mal, correto?

Com certeza. Porém, ao mesmo tempo, se o objetivo é conseguirmos ter um mercado nacional realmente forte, ainda é muito pouco.

Ainda somos pequenos como indústria. Não é culpa do Doff, eles tem sim um papel de ajudar na divulgação do hobby para o público geral e acredito que consigam fazer isso até certo ponto, mas ainda somos exageradamente nichados. Somos uma das tribos do que compõem a grande tribo “nerd” para o mercado.

Quando eu pego táxi para ir do Centro do São Paulo para o evento, o taxista sempre pergunta qual é o evento, se surpreende quando eu falo que é um evento de jogos de tabuleiro e pergunta “se tem muita gente lá”.

No início eu respondia animadão “sim, vão mais de 10 mil pessoas”. Aos poucos eu percebi que, para eles, isso não é tanta gente assim. Muita gente, para eles, é um evento do varejo, ou da indústria de brinquedos, com 60, 70 mil pessoas por dia.

Para dar uma imagem do que estou dizendo, vejam essa foto de cima do Expo Center Norte. O quadrado vermelho é o espaço do Doff. Compare com o tamanho total do local.

Graças ao Doff e ao trabalho que as editoras fazem (e que muita gente as vezes parece não reconhecer), o hobby ainda é pequeno e, como tal, se foca em quem pode pagar os jogos importados e localizados no Brasil: a classe média alta.

As editoras buscam mudar isso, elas investem em jogos mais simples e baratos que criem público e que, aos poucos, crie massa crítica capaz de sustentar a produção de jogos melhores. Mas é um processo lento e difícil. A distribuição melhorou muito, hoje a gente vê os nossos jogos em lojas de brinquedo, mas eles ainda chegam muito caros lá.

É preciso levar em conta que a tendência mundial vai na contra-mão do que precisamos: a produção dos jogos é cada vez mais cara. Hoje não aceitamos mais jogos como os que eram produzidos há 15, 20 anos atrás. Os jogos precisam ser mais bonitos, com componentes mais elaborados. Tudo isso é custo, e todo o custo termina sendo pago por quem compra o produto. Não tem outro jeito.

Nesse contexto, a ideia de trazer um espaço de jogos clássicos, que são muito mais acessíveis, faz muito sentido. Mostra que você pode se divertir com jogos sem ter que gastar 400, 500 reais comprando o lançamento do momento. Existem muitas formas de se divertir com jogos.

Conclusão

Não dá mais para dizer que o hobby de Jogos de Tabuleiro no Brasil é algo incipiente. Temos várias empresas atuando no mercado, praticamente todo jogo relevante sai por aqui e temos eventos regulares com um notável índice de crescimento, como é o caso do Doff.

Mas, ainda estamos na adolescência. Ainda não somos uma indústria madura.

Por um lado, hoje temos um evento bastante profissional, sediado em um dos maiores centros de convenção do país. Por outro, ainda não conseguimos sustentar um evento exclusivamente de jogos de tabuleiro — precisamos de outros hobbies, como o RPG, para gerar massa crítica. E isso não é algo ruim; a GenCon funciona assim. É apenas um sinal de que ainda temos espaço para crescer.

Nesse contexto, a presença dos jogos clássicos — muito mais acessíveis — faz todo sentido. Eles mostram que você pode se divertir sem gastar 400, 500 reais no lançamento do momento. E, junto com os hobbies paralelos como RPG, miniaturas e wargames, ajudam a dar corpo ao evento.

Talvez seja justamente essa mistura de jogos modernos, clássicos e hobbies vizinhos que revela onde estamos. Ainda não temos massa crítica para um evento só de board games, mas temos diversidade suficiente para continuar crescendo.

Já não somos mais uma excentricidade, mas ainda somos uma curiosidade. Seremos uma indústria madura quando for normal alguém ganhar um jogo moderno de aniversário — e não apenas War ou Banco Imobiliário.

Disclaimer

O Covil dos Jogos não recebeu credencial de imprensa ou de influenciador esse ano. Eu fui convidado para a sexta-feira, mas aparentemente isso foi por acaso, parece que houve um sorteio. No sábado eu estive presente com um convite do Paulo, que por ser expositor tinha direito a convites de cortesia.

Além de todo conteúdo que o Paulo faz (há dois anos transmitindo direto do evento, pagando por um espaço para ter estúdio local) eu faço, no mínimo, dois artigos anuais sobre o Doff. Acho difícil dizer que não damos atenção ao evento.

Independente do que eu penso sobre isso, o evento sempre terá cobertura por aqui. O Doff é a principal feira do hobby de jogos de tabuleiro no Brasil e isso faz dele um assunto relevante para a maioria do meu público.

O que acharmos bom nós vamos elogiar e vamos expor o que acharmos que deve ser corrigido. Entendo que esse é o papel da imprensa.

Uma coisa é ajudar a divulgar, outra é virar departamento de marketing dos agentes do mercado.

Tags: Diversão OfflineDoff
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Eduardo Vieira

Eduardo Vieira

Eduardo Vieira é analista de sistemas, e participa do Hobby desde 2018, mas vem tentando descontar o tempo perdido! É casado, mora no Rio de Janeiro e vive reclamando que não tem parceiros para jogar tudo que compra!

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