Fala Povo! Eu sou o Rafa Carvalho trazendo mais um texto da série “Por trás do Board”, explorando como a temática de um jogo é amarrada em suas mecânicas.
No final da análise vamos atribuir uma nota para essa amarração em uma escala que vai de 1 a 5, onde 1 é aquele jogo quase “abstrato”, e 5 um jogo altamente imersivo em que você entra de cabeça naquele mundinho.

E o jogo da vez é o Darwin’s Journey, lançado em 2023, dos Designers Simoni Luciane e Nestore Mangone, que em conjunto assinam também Newton, e que individualmente são autores de jogos como: Barrage; As viagens de Marco Polo; Nucleum; Tzolk’in (que também tem texto por aqui); Stupor Mundi e Shackleton Base.
Darwin’s Journey é um Eurogame de colocação de trabalhadores em que os jogadores revivem as memórias de Charles Darwin durante sua expedição às ilhas Galápagos, experiência que inspirou sua teoria da evolução.

Charles Darwin foi um naturalista e biólogo inglês, nascido em 1809, conhecido por desenvolver a teoria da evolução das espécies por meio da seleção natural. Suas viagens proporcionaram a observação de diversas espécies e ecossistemas que influenciaram profundamente suas ideias.
Em 1859, Darwin publicou sua grande obra, A Origem das Espécies, na qual apresentou evidências e argumentos que sustentavam a evolução ao longo do tempo, desafiando as visões contemporâneas sobre a imutabilidade das espécies.
As principais contribuições de Darwin para a ciência incluem a formulação do conceito de seleção natural como mecanismo de evolução, que sugere que os organismos mais adaptados ao seu ambiente têm maior probabilidade de sobreviver e reproduzir-se. Suas hipóteses forneceram ainda base teórica para a biologia moderna, influenciando áreas como a genética, ecologia e paleontologia.

Em Darwin’s Journey, os jogadores “revivem as memórias de Charles Darwin sobre as suas aventuras nas Ilhas Galápagos”, assumindo o papel de trabalhadores/naturalistas reconstruindo sua jornada.
O jogo utiliza um sistema inovador de progressão de trabalhadores, no qual cada um deles precisa estudar disciplinas específicas para executar ações como explorar, enviar correspondências, coletar amostras de espécimes das ilhas e enviá-las a museus para ampliar o conhecimento biológico.
1) ACADEMIA
Para a progressão dos trabalhadores precisamos realizar a ação da Academia, que permite comprar Selos de Cera, que podemos interpretar como certificações.
O jogador paga o custo do selo e o coloca no espaço disponível de um de seus trabalhadores, habilitando disciplinas que fortalecem suas ações e liberam a capacidade de realizar ações mais avançadas no jogo.

Selos adicionais concedem ainda distinções prateadas ou douradas para aquele trabalhador, o que rende pontos e benefícios extras, e o habilita a cumprir requisitos da sua “tripulação”, tópico que você verá mais a frente na nossa análise (6).
Essa mecânica de estudo de novas disciplinas pode fazer referência direta ao extenso aprendizado científico de Darwin, que estudou teologia em Cambridge, mas se destacou ao mergulhar em cursos de geologia, botânica, entomologia e taxidermia, conhecimentos essenciais que usaria nas Ilhas Galápagos.
Os estudos de Darwin permitiram que ele reconhecesse padrões, diferenciasse espécies e compreendesse processos naturais, base para suas futuras teorias que seriam fundamentadas principalmente por suas navegações pelas Ilhas Galápagos, onde pôde observar variações entre espécies semelhantes de diferentes ilhas, evidências que o levaram a questionar a ideia de espécies fixas.
2) NAVEGAÇÃO
A ação de navegação remete diretamente à viagem de cinco anos de Darwin a bordo do HMS Beagle, traduzida na mecânica como as cinco rodadas da partida.
Apenas como curiosidade, estes cinco anos de viagem levaram Darwin a diversos locais, “incluindo” (mas não se limitando) as Ilhas Galápagos, porém esse recorte foi decisivo para suas teorias, sendo o que foi representado em Darwin’s Journey.

O HMS Beagle era um pequeno navio de pesquisa da Marinha Real Britânica, que embora fosse um barco relativamente pequeno, era equipado para a pesquisa científica e possuía uma tripulação dedicada.
Direcionado para explorar e mapear partes da costa da América do Sul, a embarcação tinha inicialmente a missão de realizar levantamentos cartográficos, mas teve gradativamente o seu foco alterado para a observação naturalista.
Darwin embarcou no Beagle em 1831, aos 22 anos, e enfrentou vários desafios, incluindo condições meteorológicas adversas e problemas de saúde, como malária e queimaduras solares, mas sempre manteve um diário detalhado de suas observações.
No jogo, mais do que seguir os passos de Darwin, você o “persegue”, pois o HMS Beagle tem seu “meeple” próprio representado na trilha de navegação, avançando rodada pós rodada, e ter o seu barquinho pessoal atrás da embarcação do Darwin resulta em penalidades na pontuação do bônus da rodada, e ainda chegar atrasado na corrida para alcançar novas ilhas e descobrir novas espécies.

Isso porque, na ação de Navegação, o jogador move seu navio pelo tabuleiro oceânico, e ao cruzar determinados marcos é liberada a entrada dos seus exploradores em novas ilhas, abrindo caminhos para novas descobertas e ações, assim como na trajetória de Charles Darwin, onde o navio constantemente desembarcava em áreas inexploradas ou pouco documentadas pela ciência, permitindo-o observar novos ecossistemas e coletar materiais únicos.
Ainda como benefício da Navegação, quando o navio para em um espaço com um ícone de ação, o jogador pode executá-la imediatamente, tornando a Navegação uma ferramenta importante para os tão satisfatórios “combos”!
Embora Darwin tenha viajado sozinho como naturalista, seu percurso inspirou diversos pesquisadores posteriores, como Alfred Russel Wallace, que trilhou caminhos semelhantes na coleta de espécies e observação da biodiversidade (embora não na mesma rota marítima), e expedições científicas posteriores, como a Challenger Expedition, que representaram a continuidade do interesse em explorar oceanos e regiões já estudadas na era de Darwin, seguindo o mesmo espírito de investigação naturalista que o Beagle inaugurou.

3) EXPLORAÇÃO DE ILHAS
A ação de Exploração permite mover seus exploradores pelas trilhas das ilhas. Inicialmente apenas uma ilha está liberada para exploração, o que vai mudando à medida que seu barco avança na trilha, até um máximo de três ilhas possíveis.
Os movimentos do explorador nas ilhas ativa vários benefícios, como ganhar moedas, pontos de vitória, e até montar acampamentos para mais combos, tanto no mapa quanto no tabuleiro individual, mas podemos dizer que o objetivo principal desta ação está em coletar novos espécimes.

Darwin visitou as Galápagos em 1835, e ficou particularmente impressionado com a diversidade biológica das ilhas e as adaptações únicas das espécies que ali habitavam.
Uma de suas observações mais notáveis foi a variedade de tentilhões (pequenos pássaros) que encontrou nas diferentes ilhas. Embora os tentilhões compartilhassem um ancestral comum, ele percebeu que cada espécie tinha bicos adaptados a diferentes fontes de alimento, como sementes de diferentes tamanhos e formas.
Essa adaptação variada ilustrou como a seleção natural poderia levar à divergência de espécies a partir de um ancestral comum, dependendo das condições ambientais de cada ilha.
Além disso, Darwin observou outras espécies, como as tartarugas gigantes e as iguanas marinhas, que apresentavam características específicas para sobreviver em seus respectivos habitats.

As ilhas Galápagos, portanto, tornaram-se um importante exemplo de como a diversidade biológica pode surgir em resposta a diferentes pressões ambientais, sendo fundamentais para o desenvolvimento de suas ideias sobre a evolução e a adaptação, no entanto, as teorias originadas destes estudos só viriam a ser publicadas 24 anos depois, em 1859, mas já falamos mais sobre esse assunto no tópico a seguir, “correspondências”.
4) CORRESPONDÊNCIAS
Na ação de Correspondência, o jogador desloca seus “carimbos” postais do tabuleiro individual para um envelope no tabuleiro central, ativando benefícios conforme esvazia suas pilhas de carimbos, e ainda disputando a “maioria de área” para alguns bônus de final de rodada, como moedas, certificações, a ações extras.
Nota: O que chamei aqui de “carimbos” (seguindo o manual PT BR) seriam mais como “selos” (no original “stamps”), mas acredito que adotaram esse termo na tradução para não conflitar com os “selos de cera” da ação da Academia.

A ação de Correspondência remete a algo central na vida de Darwin: as cartas.
Durante a viagem, ele enviou inúmeras cartas à Inglaterra, para familiares, colegas cientistas e instituições, relatando descobertas, pedindo opiniões e enviando espécimes.
No jogo, esvaziar pilhas de selos concede bônus, e na realidade, suas cartas alimentaram a comunidade científica britânica e influenciaram gerações de naturalistas, sendo essenciais também porque Darwin enviava materiais antes mesmo de voltar, assim parte de suas descobertas já era estudada em museus e universidades enquanto ele ainda estava em campo.
A troca de correspondências de Charles Darwin com outros cientistas, naturalistas e amigos, foi também uma parte fundamental do desenvolvimento de suas teorias, sendo que um ponto central da vida de Darwin, que envolve diretamente o tema das “correspondências”, está ligado à publicação de A Origem da Espécies.
Além de seu perfeccionismo que o levava a querer acumular evidências por décadas antes de tornar pública a sua teoria, Darwin temia publicar suas ideias porque sabia que a teoria da seleção natural confrontava diretamente as crenças religiosas e científicas dominantes da época, especialmente a noção de criação fixa defendida pela Igreja, o que poderia gerar forte rejeição pública e profissional.
Precisamos recordar que o pai da Teoria da Evolução estudou teologia em Cambridge, e, em sua juventude, chegou a se preparar para ser ordenado padre anglicano, questões que muito provavelmente geravam um conflito interno muito grande em Darwin.

O que finalmente o fez mudar de ideia foi a chegada da carta de Alfred Russel Wallace, em 1858, apresentando uma teoria praticamente idêntica, um choque que o obrigou a agir rapidamente para não perder prioridade científica, resultando na publicação conjunta das ideias e, no ano seguinte, de A Origem das Espécies.
5) MUSEU E TRILHA DA TEORIA DA EVOLUÇÃO
Retornando às ações de Navegação e Exploração das ilhas, vimos que seu objetivo principal é catalogar novas espécies, mas apenas coletá-las não é o bastante.
Para que você possa avançar na trilha da teoria da evolução (de longe o que mais vai te gerar pontos), você precisa catalogar essas espécies enviando-as para os museus, e fazer isso antes dos outros jogadores, garantindo o ineditismo das suas descobertas.

A relação de Charles Darwin com museus foi significativa tanto em sua formação como cientista quanto na disseminação de suas ideias. Durante sua juventude, ele frequentou o Museu de História Natural de Londres, onde foi exposto a uma vasta coleção de espécimes que inspiraram seu interesse pela biologia e pela história natural.
As exposições de exemplos de diversidade biológica, fósseis e espécimes coletados em várias partes do mundo, ampliaram sua compreensão sobre a vida e suas interações.
Durante a expedição do HMS Beagle, Darwin coletou uma vasta gama de exemplares, sendo este ponto representado no jogo pelas quatro categorias que aparecem nos tokens de espécimes, Répteis, Plantas, Aves e Fósseis.
Darwin também tomou notas detalhadas sobre a geologia, a flora e a fauna dos lugares que visitou, não apenas das Ilhas Galápagos, como também da costa do Chile, as pampas da Argentina, e até mesmo de locais no Brasil, onde esteve duas vezes, em 1832 e 1836.
No Brasil ele passou por Fernando de Noronha, Salvador e Rio de Janeiro, e ficou profundamente impressionado com três aspectos principais: a natureza tropical exuberante, a diversidade de espécies e as contradições sociais, especialmente a escravidão.
Após suas viagens e pesquisas, Darwin contribuiu para os museus através de suas coleções pessoais. Ele enviou muitas amostras que coletou durante sua expedição para o Museu Britânico, onde se tornaram parte da coleção do museu e permitiram que outros cientistas estudassem e validassem as suas descobertas.

Em Darwin’s Journey, cada vez que o jogador realiza a ação de entregar espécies no museu, ele recebe moedas de acordo com as espécies que ainda não estão descobertas na mesma linha e coluna, e avança na trilha da teoria da evolução para aqueles exemplares já descobertos seguindo a mesma regra da linha e coluna.
Ao fim da partida, sua posição na trilha da teoria da evolução será multiplicada por dois e pelo número de linhas de espécies completas no museu, ou seja, muitos pontos de vitória!
6) OBJETIVOS E CARTAS DE TRIPULAÇÃO
A mecânica de objetivos individuais em Darwin’s Journey funciona por meio de tokens de Objetivo inicial, e Objetivos gerais, que os jogadores podem adquirir durante a partida, e que quando cumpridos são alocados no tabuleiro individual, fornecendo habilidades ou pontuações de final de partida.
A variedade de objetivos (8 objetivos iniciais e 20 gerais) permitem que cada jogador siga um caminho estratégico próprio, se planejando entre metas de curto e longo prazo, e cada um deles estabelece metas específicas, como ter um número específico de acampamentos, coletar espécies de uma tipologia indicada, ou alcançar determinada posição na trilha da teoria da evolução.

Já as cartas de tripulação, para serem ativadas, tem como requisito uma certa combinação de selos de cera em um único trabalhador (não podendo repetir o mesmo trabalhador para diferentes cartas), e fornecem habilidades únicas e poderosas, no entanto, sendo mais difíceis de serem concluídas, o que em geral acontece na segunda metade da partida.
Na prática, a tripulação do HMS Beagle foi o time que garantiu que tudo funcionasse durante a expedição, cuidando da navegação, da rotina do navio e do suporte necessário para que Darwin pudesse passar longos períodos em terra fazendo suas observações.
Quanto as figuras representadas nas Cartas de Tripulação, os autores optaram for usá-las como homenagem a pessoas com participação no desenvolvimento do jogo, uma espécie de “easter egg”, como vocês podem ver na imagem a seguir.

Considero muito interessante e justo os designers fazerem essa homenagem, mas como estamos avaliando a amarração temática, não fazer essa ligação com personagens reais vai retirar alguns pontinhos neste tópico.
Para ilustrar as possibilidades, vou citar algumas personalidades que fizeram parte da trajetória de Charles Darwin, como Robert FitzRoy, capitão do HMS Beagle, que acompanhou Darwin durante toda a viagem e influenciou suas observações por meio de debates científicos e decisões de rota (embora mais tarde rejeitasse o darwinismo), e John Gould, ornitólogo que analisou e classificou as espécies coletadas por Darwin, especialmente os tentilhões das Galápagos, ajudando a revelar diferenças chave entre populações insulares.
No desenvolvimento direto da teoria da evolução podemos mencionar também o botânico Joseph Dalton Hooker, que contribuiu revisando manuscritos, debatendo conceitos e apoiando a publicação, e o naturalista Alfred Russel Wallace, já citado no tópico “correspondências”.
7) DESBLOQUEAR NOVAS LENTES
De forma geral, todos os pontos de alocação no tabuleiro de Darwin’s Journey são representados por “lupas”, com variações (circular/quadrada) que indicam se as ações estão abertas ou não para mais de um “trabalhador/pesquisador”.
Embora o manual não declare explicitamente o simbolismo destas lupas, podemos interpretar que o cerne de todas as ações está ligado a estudos minuciosos, análise de espécimes e uma observação detalhada de todo o trabalho de pesquisa de Darwin.
Para ampliar as possibilidades oferecidas por essas lupas temos a ação de Desbloquear Lentes, que abre permanentemente um novo espaço para alocação ao colocar um token de lente individual naquele espaço, o que mecanicamente permitirá ações mais fortes em relação àquelas padrão.
O jogador que liberou a ação com sua lente ganha acesso imediato a todos os efeitos daquele local, sem custos de selos. Outros jogadores também poderão alocar neste espaço futuramente, mas sempre concedendo uma moeda ao jogador que o desbloqueou.

Podemos considerar a ação de desbloquear lentes como uma ação secundária em termos de temática, e para tentar fazer essa relação precisaremos abstrair um pouco o entendimento e pensar “fora da caixinha”, talvez conectando-a a maneira como Darwin, com suas observações e hipóteses, abriu novas “lentes” científicas para compreender o mundo natural.
É possível ainda relacionar a renda de moedas, quando outros jogadores usam sua lente, como uma metáfora que reflete como outros cientistas passaram a se apoiar no trabalho pioneiro de Darwin…
…beleza, essa foi longe! Acho que nem os autores pensaram nisso, daí já vemos que esse tópico não vai ser o mais bem pontuado da análise!
VEREDITO
Após a análise fica evidente que em Darwin’s Journey as mecânicas não foram “coladas” em alguma temática a escolha, mas sim que a temática inspirou diretamente as mecânicas e suas interações.
No entanto, essa implementação se deu com um bom nível de liberdade, priorizando sempre o funcionamento de todas as engrenagens do jogo em perfeita sintonia, o que resultou em um euro mecanicamente impecável, mas que, apesar do tema muito interessante e presente, não tem a amarração da temática necessariamente como ponto mais forte.
Com isso chegamos à tabela a seguir, avaliando cada uma das mecânicas principais, e chegando à pontuação final de 3,14 (acima da média na nossa escala).

Deixo também o atual ranking de amarração temática dos jogos avaliados aqui no “Por trás do Board”.
| JOGOS | NOTA |
| Hegemony: Conduza sua Classe à Vitória | 4,60 |
| Brass Lancashire | 4,30 |
| O Inconsciente | 4,00 |
| Pan Am | 3,80 |
| Darwin’s Journey | 3,14 |
| London: Segunda Edição | 3,00 |
| Tzolk’in: O calendário Maia | 2,83 |
| Trajan | 2,38 |
E é isso povo, espero que tenham gostado, peço para deixarem o like e um comentário, é sua forma de incentivar o canal, e não deixe de dar sugestões de jogos para nossa série!
E um último recado. Adivinha qual o jogo sorteado do mês lá na coluna do Eduardo Vieira aqui no Blog Nórdico? Isso mesmo, Darwin’s Jouney! Dá uma conferida nas regras para participar no texto da nova série, “Jogue o jogo e leia o livro”. Até a próxima!

